Santa Paula nasceu em Roma, no ano 347, em uma família de linhagem ilustre que remontava a Cornélia e chegava até Agamenon. Ainda jovem, aos dezesseis anos, casou-se com o senador Toxócio e teve cinco filhos. Até a morte do marido, viveu em luxo, vestida de seda e conduzida por escravos eunucos. Entretanto, a viuvez transformou radicalmente sua vida e abriu caminho para sua consagração total a Cristo.
A conversão do coração de Santa Paula
Após perder o esposo, Santa Paula uniu-se ao grupo de viúvas reunido por Santa Marcela, no Aventino. Nesse círculo de oração e penitência, começou a abraçar uma vida austera. Em 382, recebeu em sua casa São Jerônimo, Epifânio de Salamina e Paulino de Antioquia. O impacto desse encontro foi profundo: a palavra de Jerônimo acendeu nela um ardor irresistível pela vida monástica. O próprio Jerônimo testemunhou, como preserva a Legenda Áurea: “Se todas as partes do meu corpo fossem convertidas em línguas, eu não poderia dizer nada que se aproximasse das virtudes da venerável Paula.”
A renúncia materna de Santa Paula
Pouco depois da morte da filha Blesila, Santa Paula decidiu deixar Roma e seguir para a Terra Santa. A Legenda Áurea descreve a cena dramática no porto: seus filhos e parentes suplicavam para que ficasse. O pequeno Toxócio estendia os braços em lágrimas, enquanto Rufina, às vésperas do casamento, implorava em silêncio. Contudo, Paula, elevando os olhos ao céu, não verteu uma lágrima. Suas entranhas estavam dilaceradas, mas ela preferiu sacrificar a ternura materna em favor de um amor maior, tornando-se serva de Cristo. Apenas Santa Eustóquia, sua filha, a acompanhou na viagem.
Peregrina na Terra Santa
Ao chegar à Palestina, o procônsul ofereceu-lhe um palácio em consideração à sua nobreza. No entanto, Paula recusou e preferiu uma cela simples. Movida pela fé, percorreu com lágrimas e devoção cada lugar da vida de Cristo: prosternou-se diante da cruz, beijou a pedra do sepulcro e, em Belém, chorou diante da manjedoura. Conforme narra a Legenda Áurea, ela dizia ver, com os olhos da fé, o Menino envolto em panos, a Virgem Maria, São José solícito e os pastores em adoração. Via também a estrela dos Magos, a fúria de Herodes e a fuga da Sagrada Família. Assim, contemplava espiritualmente todo o Evangelho, como se estivesse presente.
A humildade e a disciplina de Santa Paula
Em Belém, Santa Paula viveu com tal simplicidade que muitos não a reconheceriam como nobre. Vestia-se como a última das servas, falava com modéstia e dormia sobre cilício. Jejuava com rigor e, frequentemente, chorava por faltas pequenas como se fossem grandes crimes. Quando lhe pediam que poupasse a visão para ler o Evangelho, respondia: “É preciso desfigurar este rosto que tantas vezes pintei contra o mandamento de Deus; é preciso afligir este corpo que conheceu tantas delícias, a fim de agradar agora somente a Cristo.”
As obras de Santa Paula em Belém
Junto de São Jerônimo e de sua filha Eustóquia, Santa Paula fundou dois mosteiros — um masculino e outro feminino — e organizou comunidades de virgens vindas de diferentes províncias. Nessas casas, as religiosas viviam em disciplina e oração comum. Quando surgiam desentendimentos, Paula as reconciliava com palavras de doçura. Além disso, distribuía esmolas com tanta generosidade que chegou a dar aos pobres até o necessário para a subsistência do mosteiro. Quando Jerônimo a advertiu sobre esse excesso, Paula respondeu que preferia morrer mendigando do que negar auxílio a um necessitado.
Santa Paula e a Sagrada Escritura
Animada pelo amor à Palavra de Deus, Santa Paula aprendeu hebraico até recitar os salmos na língua original. De fato, colaborou intensamente com Jerônimo na tradução da Bíblia para o latim. Foi ela quem insistiu na importância dessa obra e se dedicou à sua revisão, junto com Eustóquia. Por conseguinte, a Vulgata, fruto do trabalho de Jerônimo, deve muito à inspiração e ao esforço dessas duas mulheres santas.
O fim terreno e a glória
Em 406, já com cinquenta e seis anos, Santa Paula percebeu a proximidade da morte. Seu corpo enfraquecia, mas sua alma se fortalecia nos salmos que murmurava: “Amei, Senhor, a beleza da tua casa, e o lugar onde habita a tua glória.” Serene e confiante, entregou o espírito a Deus.
Seu funeral reuniu multidões: monges saíram de seus desertos, virgens deixaram os mosteiros, pobres acorreram em gratidão. Foi sepultada na Basílica da Natividade, em Belém. Sua filha Eustóquia permaneceu ao lado do corpo, abraçada à mãe, desejando ser sepultada junto dela.
São Jerônimo, profundamente comovido, compôs o Epitaphium sanctae Paulae e confessou que nenhuma língua poderia expressar suas virtudes. Mais tarde, ele próprio e Eustóquia foram sepultados ao lado de Paula, selando a comunhão daqueles que se consagraram inteiramente à Palavra e à pobreza de Cristo.
O legado espiritual de Santa Paula
Por fim, Santa Paula, nobre de sangue e de alma, transformou sua vida de luxo em caminho de penitência e santidade. Com sua caridade sem limites, sua humildade exemplar e sua dedicação às Escrituras, tornou-se modelo para todos os séculos. Como resume a Legenda Áurea, ela é pérola inestimável que brilhou mais do que as estrelas, porque quanto mais se humilhava, mais Cristo a exaltava.
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