São Mateus, Apóstolo e Evangelista

21 de setembro

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São Mateus Apóstolo e Evangelista nasceu em Cafarnaum, na Galileia, e trabalhou como cobrador de impostos até encontrar Jesus. No relato do próprio Evangelho, Cristo o viu sentado à banca e chamou: segue-me. Ele se levantou imediatamente e deixou tudo para seguir o Mestre.

A história de São Mateus mostra a força da graça que transforma. O homem desprezado como publicano tornou-se discípulo e evangelista. O nome Mateus significa dom de Deus e revela tanto a graça recebida quanto o presente que ele ofereceu à Igreja.

A comunidade cristã conserva sua memória como exemplo de conversão e fidelidade. Seu Evangelho, colocado em primeiro lugar no Novo Testamento, abre uma porta segura para contemplar Cristo, o Messias prometido e Salvador do mundo.

Resumo da vida de São Mateus Apóstolo e Evangelista

São Mateus, antes chamado Levi, trabalhava como cobrador de impostos em Cafarnaum quando Jesus passou diante de sua coletoria e lhe disse: “Segue-me”. Naquele instante, ele deixou tudo para trás e iniciou uma nova vida. O publicano desprezado se transformou em discípulo, aprendendo com o Mestre, participando de seus milagres, ouvindo seus ensinamentos e estando presente na Última Ceia e no testemunho da Ressurreição. Sua conversão mostra a força da misericórdia divina, que chama não os justos, mas os pecadores.

Com o coração marcado pela gratidão, Mateus não apagou seu passado. Pelo contrário, ao escrever seu Evangelho, ele fez questão de se identificar como “o publicano”, mostrando que sua história era testemunho da graça de Cristo. Seu Evangelho, redigido originalmente em língua semítica, destinava-se sobretudo aos cristãos de origem judaica. Nele, aparece a imagem de Jesus como cumprimento das profecias e anunciador do Reino dos Céus, um Reino que acolhe os pequenos, os pecadores e os pobres de espírito.

Depois do Pentecostes, Mateus pregou primeiro entre os judeus, permanecendo com eles por muitos anos. Mais tarde, segundo a tradição, partiu em missão para outras nações, como a Etiópia, a Macedônia ou a região dos partos. Sua morte é relatada de maneiras diversas: alguns afirmam que partiu em paz, mas a maioria das tradições o venera como mártir. No século XI, suas relíquias foram levadas a Salerno, onde até hoje são veneradas. Assim, São Mateus permanece na memória da Igreja como o publicano convertido em apóstolo, o evangelista que anunciou Cristo encarnado e misericordioso, e o mártir que entregou a vida pelo Senhor.

Estudo completo sobre a vida do apóstolo São Mateus

Apresentamos a seguir um estudo abrangente sobre a vida e a missão do apóstolo São Mateus, repleto de detalhes que iluminam sua trajetória desde a vocação até a entrega final. O texto tem como base a obra Os Apóstolos de Nosso Senhor, de Márcio José Paes, que oferece uma visão profunda e inspirada sobre esse testemunho de fé.

O nome e o seu significado

O nome de São Mateus concentra história, língua e teologia. Desde as raízes semíticas até a recepção cristã, ele preserva o sentido de dom gratuito, o que já orienta a leitura espiritual de sua vocação e do seu Evangelho.

Etimologia hebraica e aramaica do nome de São Mateus

Em hebraico, a forma completa מַתִּתְיָהוּ (Mattityahu) significa dom de YHWH, isto é, presente de Deus. A variante abreviada מַתִּתְיָה (Mattityah) mantém o mesmo significado. Além disso, a forma popular מַתִּי (Mattí) aparece em fontes judaicas posteriores. Em aramaico, língua corrente na Galileia, a grafia ܡܬܝ (Mattai) conserva o valor semântico original. Assim, desde o princípio, São Mateus se entende como aquele que Deus concede ao seu povo.

Adaptação ao grego

Ao passar para o grego do Novo Testamento, o nome sofreu ajustes fonéticos usuais. Os manuscritos registram duas grafias: Μαθθαῖος (Maththaíos), que conserva mais de perto a etimologia semítica, e Ματθαῖος (Matthaíos), que simplifica a pronúncia. Desse modo, o nome entrou na tradição cristã com dupla forma, sem perder a ligação com sua raiz hebraica.

O nome de São Mateus como “Dom de Deus”

Os Padres notaram cedo o sentido do nome. São Jerônimo, no livro dos nomes hebraicos, explica que Matthaeus quer dizer donatus a Domino, dom concedido pelo Senhor. Orígenes, no comentário a Mateus, retoma essa leitura e a associa à própria vocação do apóstolo, que abandona a coletoria de impostos para servir ao Evangelho. Portanto, a etimologia já ilumina a história de São Mateus.

O nome não comunica apenas origem linguística. Ele aponta, sobretudo, para a obra da graça. São Mateus recebeu de Deus uma nova vida e, depois, ofereceu à Igreja o primeiro Evangelho escrito. Por isso, o significado do nome se realiza na missão: Deus concede o apóstolo como presente ao seu povo, e o apóstolo, por sua vez, entrega o Evangelho como presente de salvação.

Levi e Mateus: duas figuras ou um só discípulo?

A questão sobre a identidade de Levi e de São Mateus aparece logo quando comparamos os Evangelhos. O próprio Mateus se apresenta pelo nome que se tornaria conhecido em toda a Igreja, mas Marcos e Lucas relatam o mesmo episódio chamando-o de Levi. Para alguns leitores, isso poderia sugerir duas pessoas distintas. No entanto, ao observarmos a tradição, fica evidente que se trata de um único discípulo, visto de ângulos diferentes.

Relatos paralelos nos Evangelhos

Nos três Evangelhos sinóticos, a cena é praticamente idêntica. Em primeiro lugar, Jesus cura um paralítico em Cafarnaum. Logo depois, ao passar pela coletoria de impostos, chama um cobrador de tributos para segui-lo. Em seguida, realiza-se um banquete na casa do novo discípulo, ocasião em que os fariseus murmuram porque Jesus comia com pecadores. As circunstâncias coincidem em tudo: o cenário, a sequência narrativa e a reação dos opositores. A diferença, portanto, está apenas no nome. Enquanto Mateus se chama a si mesmo de “Mateus, o publicano”, Marcos e Lucas preferem chamá-lo de Levi.

Discussões antigas

Essa variação de nomes gerou debates já nos primeiros séculos. Clemente de Alexandria registra que o herege Heracleão separava Levi de São Mateus, mas ele próprio não endossa essa posição. Orígenes, em seu comentário, admite que certos manuscritos poderiam alimentar a confusão, ainda assim reconhece a unidade da pessoa chamada. Mais tarde, Fócio retomou o tema em sua Bibliotheca e recordou que havia quem insistisse em distinguir Levi de Mateus. Apesar disso, a leitura dos textos mostra que se trata de um único homem, porque todos os detalhes do chamado coincidem.

Tradição consolidada

Com o passar do tempo, a Igreja consolidou a tradição de que Levi e São Mateus são a mesma pessoa. Entre os judeus, era comum portar dois nomes: um de raiz hebraica, usado em família, e outro adaptado ao ambiente helênico ou romano. Por essa razão, José era também chamado Barnabé; Simão recebeu de Cristo o sobrenome Pedro; Judas ficou conhecido como Tadeu. Do mesmo modo, Levi é o nome hebraico do publicano, enquanto Mateus é o nome que expressa sua nova identidade na comunidade cristã. O fato de o próprio evangelista se referir a si mesmo como “Mateus, o publicano” revela humildade e gratidão, pois ele não esconde o passado, mas o apresenta como prova da misericórdia divina.

Assim, a diferença de nomes não indica duas figuras distintas, mas sublinha a transformação operada por Cristo. O Levi que estava sentado à mesa de impostos é o mesmo que, chamado pelo Senhor, tornou-se São Mateus, o apóstolo e evangelista, dom de Deus para a Igreja.

São Mateus o coletor de impostos em Cafarnaum

O episódio da vocação de São Mateus em Cafarnaum ocupa lugar central na sua biografia espiritual. Ele mostra de forma concreta como a graça de Cristo transforma um homem desprezado pela sociedade em discípulo e evangelista. A narrativa, presente nos três Evangelhos sinóticos, possui um valor exemplar: nela, cada detalhe revela tanto a misericórdia do Mestre quanto a resposta radical do chamado.

São Mateus Coletor de Impostos encontra Jesus

O contexto histórico dos publicanos

Na Palestina do século I, os publicanos eram coletores de impostos que trabalhavam a serviço de Roma ou de administradores locais ligados a Herodes. Frequentemente, exploravam seus compatriotas, cobrando taxas acima do exigido para enriquecerem às custas do povo. Por esse motivo, os publicanos eram tidos como pecadores públicos, indignos de confiança e comparados até a pagãos. Quando São Mateus aparece sentado em sua coletoria, os leitores entendem imediatamente a profundidade do desprezo social que o cercava. Ele não era apenas um trabalhador comum, mas alguém marcado por estigma de traição e ganância.

O chamado de Jesus para São Mateus: “Segue-me”

Nesse cenário, Jesus passa diante da coletoria e pronuncia apenas duas palavras: “Segue-me” (Mt 9,9). O gesto é simples, mas de enorme força espiritual. Cristo não faz um discurso persuasivo nem apresenta condições prévias; Ele olha, chama e espera uma resposta. Assim, a mesma graça que transforma pescadores em apóstolos alcança também o cobrador de impostos. A palavra de Jesus rompe as barreiras de preconceito e toca o coração de São Mateus, mostrando que até o mais desprezado pode tornar-se discípulo.

O gesto radical de “deixar tudo”

O Evangelho de Lucas acrescenta um detalhe que revela a grandeza da resposta: “Deixando tudo, levantou-se e o seguiu” (Lc 5,28). Esse “deixar tudo” significa abandonar imediatamente a antiga vida, renunciar à segurança financeira e romper com um ofício lucrativo, mas desonrado. O publicano, acostumado a lidar com dinheiro e poder, não hesita. Ao contrário, levanta-se e segue Jesus sem demora. Dessa maneira, a decisão de São Mateus aparece como testemunho de prontidão e confiança total no chamado do Mestre.

O banquete na casa de São Mateus e a resposta de Cristo

Logo após sua vocação, São Mateus oferece a Jesus um grande banquete em sua própria casa (Lc 5,29). Muitos publicanos e pecadores participam da refeição, o que causa escândalo entre os fariseus. Como podia um rabi sentar-se à mesa com gente considerada impura? A resposta de Cristo ecoa como síntese de sua missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2,17). Ao registrar esse detalhe, o Evangelho mostra que a mesa de Mateus torna-se figura da Igreja nascente: lugar de misericórdia, onde os pecadores encontram acolhida. Assim, o publicano transformado em apóstolo não apenas recebe um novo caminho, mas inaugura em sua própria casa um sinal do Reino que Jesus veio instaurar.

A humildade de São Mateus de se chamar “publicano”

Entre os apóstolos, São Mateus se distingue por um detalhe de grande valor espiritual: ao narrar sua própria vocação, ele não apenas registra o nome pelo qual ficou conhecido na Igreja, mas acrescenta a si mesmo a nota “o publicano” (Mt 10,3). Essa escolha literária revela muito mais do que um simples dado biográfico; ela exprime humildade profunda e consciência da graça recebida.

Mateus escreve o próprio nome acompanhado de “publicano”

Enquanto poderia ter omitido sua antiga profissão, São Mateus a mantém registrada em seu Evangelho. Dessa forma, mostra que não quis apagar o passado, mas transformá-lo em testemunho. Aquele que outrora se sentava à mesa de tributos escolhe ser lembrado para sempre como publicano convertido. Com isso, não se exalta nem tenta justificar-se; ao contrário, reconhece que foi alvo da misericórdia de Cristo.

Comparação com Marcos e Lucas

O contraste com os outros evangelistas torna-se evidente. Marcos (Mc 3,18) e Lucas (Lc 6,15), ao apresentarem a lista dos Doze, citam apenas o nome de Mateus, sem qualificativos. Talvez por respeito, ou para não expor o passado do apóstolo, ambos preferiram silenciar sobre sua condição anterior. Já o próprio evangelista assume o estigma que o acompanhava, colocando-se diante da comunidade cristã como exemplo de pecador transformado pela graça. Essa diferença mostra a consciência pessoal de São Mateus: ele sabia de onde viera e não quis que isso fosse esquecido.

Interpretação de Eusébio, Jerônimo e Crisóstomo

A patrística valorizou esse gesto. Eusébio de Cesareia observou que a nota “publicano” é sinal de sinceridade e humildade, pois o apóstolo não esconde a verdade sobre si mesmo. Jerônimo, em seu comentário ao Evangelho, destacou que São Mateus preferiu humilhar-se em sua própria escrita para exaltar a misericórdia de Cristo. João Crisóstomo, por sua vez, sublinhou que a lembrança do passado não diminuía o apóstolo, mas o engrandecia, porque mostrava a potência da graça que o transformou em testemunha do Evangelho.

Valor espiritual: reconhecer o passado como testemunho da graça

Assim, a escolha de São Mateus não é um detalhe irrelevante, mas uma verdadeira lição de espiritualidade. Reconhecer-se publicano significa aceitar que a identidade anterior foi vencida e curada por Cristo. A humildade de carregar consigo o nome do pecado serve para engrandecer ainda mais a força da graça. Dessa forma, o apóstolo ensina que não devemos negar nossa história, mas oferecê-la a Deus como prova viva de sua misericórdia. O publicano transformado em evangelista permanece, portanto, sinal de esperança para todos os que acreditam que a graça é capaz de refazer a vida inteira.

São Mateus: Discípulo e Apóstolo do Senhor

O itinerário de São Mateus não termina no momento em que deixou a coletoria de impostos. Pelo contrário, a partir daquele dia ele passou a integrar de modo pleno a vida pública de Cristo, acompanhando-o de perto em sua missão. O antigo publicano, desprezado pela sociedade, tornou-se testemunha dos milagres, dos ensinamentos e, sobretudo, do amor que o Mestre manifestou até a cruz.

Presença na vida pública de Jesus

Após a vocação em Cafarnaum, São Mateus seguiu o Senhor em todos os caminhos da Galileia e da Judeia. Ele presenciou a multiplicação dos pães, escutou o sermão da montanha, viu cegos recuperarem a vista e paralíticos caminharem. Mais do que isso, participou da vida cotidiana de Jesus, convivendo com Ele no anúncio do Reino de Deus. Dessa forma, sua memória e sua experiência direta seriam mais tarde transformadas em fonte do Evangelho que leva seu nome.

São Mateus na Última Ceia e testemunho da Ressurreição

Na noite em que Jesus instituiu a Eucaristia, São Mateus estava presente ao redor da mesa, recebendo das mãos do Mestre o pão e o cálice. Embora tivesse fugido junto com os demais discípulos na hora da prisão, ele não deixou de ser contado entre aqueles que depois testemunharam a Ressurreição. Viu o Senhor ressuscitado, escutou sua saudação de paz e reconheceu que Aquele que o havia chamado na coletoria agora vencia a morte. Por isso, a fé de Mateus não foi construída em teorias, mas em experiências diretas com o Ressuscitado.

Perseverança em oração com os Doze após a Ascensão

Depois da Ascensão de Cristo, São Mateus permaneceu fiel à comunidade apostólica. O livro dos Atos o apresenta em Jerusalém, perseverando em oração com Maria e os demais discípulos (At 1,13-14). Essa perseverança mostra a maturidade da fé: o publicano convertido já não dependia apenas do entusiasmo inicial, mas se firmava na comunhão da Igreja nascente. Ao lado dos outros apóstolos, esperou a descida do Espírito Santo no Pentecostes, recebendo a força que o enviaria em missão. Assim, o homem chamado da coletoria se tornou, definitivamente, discípulo e apóstolo do Senhor.

O Evangelho de São Mateus

Entre os quatro Evangelhos, o de São Mateus ocupa lugar privilegiado, porque desde os primeiros séculos foi associado diretamente ao apóstolo que deixou a mesa de impostos para seguir Cristo. Sua redação obedece a uma finalidade clara: anunciar Jesus como o Messias prometido ao povo da Antiga Aliança, cumprindo todas as Escrituras.

São Mateus Apóstolo

Escrita em “aramaico” segundo a tradição

A tradição antiga afirma que São Mateus escreveu sua obra “na língua hebraica”. Irineu de Lião, Eusébio de Cesareia e Jerônimo repetem essa notícia, cada um confirmando que o primeiro Evangelho nasceu em linguagem semítica. No entanto, é importante esclarecer: quando esses autores falam em “hebraico”, não distinguem com precisão entre hebraico clássico e o aramaico, que era a língua falada na Palestina do século I. Por isso, hoje se reconhece que o texto original de Mateus foi composto em aramaico, a língua viva do povo de Israel, e apenas depois traduzido ao grego, no qual chegou até nós. Infelizmente, a versão em aramaico foi perdida, nos restando somente a versão em grego koiné.

Evangelho de Mateus em Grego Koiné

Destino principal: cristãos de origem judaica

A própria estrutura do Evangelho revela seu público imediato. São Mateus escreve para cristãos oriundos do judaísmo, que conheciam bem a Lei e os Profetas. É por isso que ele cita constantemente as Escrituras, introduzindo-as com fórmulas como “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”. Dessa forma, seu Evangelho apresenta Cristo como o novo Moisés, legislador do Reino, e ao mesmo tempo como o Filho de Davi, herdeiro das promessas.

Conteúdo e teologia

Do ponto de vista teológico, o Evangelho de São Mateus insiste em dois eixos fundamentais. Em primeiro lugar, o “Reino dos Céus”, expressão característica que aparece dezenas de vezes, indicando a novidade trazida por Cristo em contraste com as expectativas meramente políticas de Israel. Em segundo lugar, o cumprimento das profecias: cada gesto de Jesus é narrado como realização do plano divino revelado no Antigo Testamento. Além disso, o Evangelho destaca a missão da Igreja, especialmente no discurso de envio dos apóstolos e na promessa de que Cristo permaneceria “até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Testemunho de Irineu, Eusébio e Jerônimo

Os Padres da Igreja confirmam essa tradição. Irineu, em Contra as Heresias (III,1,1), declara que Mateus escreveu o Evangelho “entre os hebreus, na sua própria língua”. Eusébio, na História Eclesiástica (III,24,6), retoma a mesma notícia e acrescenta que o texto foi depois traduzido para o grego. Jerônimo, por fim, em seu De viris illustribus (cap. 3), repete a informação e reconhece ter consultado exemplares antigos da versão aramaica ainda conservados em sua época. Esses testemunhos mostram que, para a tradição, o Evangelho de São Mateus nasceu dentro do judaísmo cristão, mas logo se tornou patrimônio de toda a Igreja.

Comparações com outros apóstolos

A figura de São Mateus se torna ainda mais clara quando comparada com a de outros apóstolos. Cada um, chamado de modo particular, manifesta um aspecto único da ação de Cristo. Assim, embora todos compartilhem a mesma missão, nenhum deles se confunde com o outro.

Paralelo com Simão Pedro, Barnabé e Judas Tadeu

Simão recebeu de Jesus o novo nome de Pedro, isto é, a Pedra sobre a qual a Igreja seria edificada. Barnabé, cujo nome de batismo era José, ganhou entre os irmãos o apelido que significa “filho da consolação” (At 4,36). Judas, por sua vez, ficou conhecido também como Tadeu ou Lebeu, designações que acompanhavam sua identidade de apóstolo. De forma semelhante, o publicano de Cafarnaum foi chamado Levi em algumas tradições, mas na comunidade cristã ficou definitivamente conhecido como São Mateus, o evangelista. Em todos esses casos, o nome não é mero detalhe: ele reflete a missão confiada por Cristo e a transformação operada pela graça.

Semelhança etimológica com Natanael

Existe ainda uma curiosa proximidade etimológica entre São Mateus e Natanael. O nome Natanael significa “Deus deu”, enquanto Mateus quer dizer “dom de Deus”. A semelhança, entretanto, não deve induzir à confusão. O chamado de Natanael, narrado por João, se dá sob a figueira e culmina na profissão de fé “Tu és o Filho de Deus” (Jo 1,49). Já o chamado de Mateus ocorre em Cafarnaum, quando o publicano se levanta da banca de impostos e segue Jesus em silêncio. Portanto, ainda que os nomes se aproximem no significado, a identidade e a missão de cada um permanecem distintas.

Cada apóstolo como dom único à Igreja

Essas comparações demonstram que Cristo chamou homens diferentes para formar o colégio apostólico. São Pedro foi a Pedra, Barnabé a Consolação, Judas Tadeu o corajoso pregador, Natanael o contemplativo, e São Mateus o publicano convertido em evangelista. Cada um deles, com sua história própria, constitui um dom único à Igreja. Assim, a comunidade cristã não se edifica pela uniformidade, mas pela diversidade reconciliada em Cristo. O nome e a vida de São Mateus lembram que o Senhor não rejeita a fraqueza humana, mas a transforma em graça abundante, colocando cada apóstolo como presente de Deus para o crescimento da fé.

Vida apostólica de São Mateus após Pentecostes

Depois da descida do Espírito Santo, São Mateus iniciou a missão que prolongaria sua vocação de discípulo e evangelista. O Pentecostes transformou aquele que fora cobrador de impostos em anunciador do Evangelho, testemunha do Ressuscitado e arauto do Reino de Deus.

Pregação de São Mateus aos hebreus

Nos primeiros anos, São Mateus permaneceu em Jerusalém e na Palestina, pregando a seus compatriotas. A Igreja nascente, formada por judeus convertidos, era o campo natural para sua ação missionária. Sua palavra tinha peso, porque ele próprio podia afirmar: outrora publicano, agora discípulo do Messias. A experiência pessoal de conversão reforçava seu testemunho diante dos hebreus que esperavam o cumprimento das promessas antigas.

Tradição de quinze anos de missão entre os judeus

Eusébio de Cesareia e outros autores da Antiguidade relatam que São Mateus dedicou aproximadamente quinze anos de sua vida à missão entre os judeus. Nesse período, teria também redigido seu Evangelho em aramaico, justamente para que os cristãos de origem judaica tivessem um testemunho escrito adaptado à sua língua e mentalidade. Assim, sua pregação não se limitou ao anúncio oral, mas deixou registrada a memória do que Jesus fez e ensinou.

Posterior envio às nações

Após essa longa etapa entre os hebreus, a tradição afirma que São Mateus partiu em missão para outros povos. As fontes não são unânimes quanto ao destino exato: alguns o situam entre os partos, outros na Etiópia, outros ainda na Macedônia. Apesar da diversidade de tradições, o que permanece certo é que o apóstolo não restringiu sua missão ao povo de Israel. Seguindo o mandato do Senhor — “Ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19) —, ele levou o Evangelho além das fronteiras da Palestina, tornando-se não apenas apóstolo dos hebreus, mas missionário para todos os povos.

Ministérios e tradições missionárias sobre São Mateus

A história posterior de São Mateus após sua missão entre os hebreus abre-se em múltiplas tradições. A Escritura silencia sobre seus caminhos, mas os Padres e cronistas antigos transmitiram lembranças que, embora divergentes, revelam o impacto de sua figura no imaginário cristão. A Tradição afirma que a pregação do apóstolo provocou a conversão de Santa Efigênia.

Diversas tradições: Etiópia, Partos e Macedônia

Alguns autores afirmam que São Mateus teria pregado na Etiópia, levando o Evangelho a regiões longínquas do continente africano. Outros, porém, o situam entre os partos, no atual Irã, destacando que sua missão alcançou terras dominadas por tradições religiosas distintas do judaísmo. Há ainda quem mencione a Macedônia como destino de sua pregação, indicando que o apóstolo teria levado a fé cristã também para áreas do mundo grego. Essa diversidade de relatos não enfraquece a memória, mas mostra como sua figura foi associada ao anúncio universal da Boa-Nova.

Clemente, Rufino, Gregório Magno e Isidoro de Sevilha

Entre os escritores eclesiásticos, Clemente de Alexandria mencionou a vida austera de São Mateus, marcada pela simplicidade de costumes. Rufino de Aquileia, ao traduzir Eusébio, repetiu que o apóstolo anunciara primeiro aos hebreus e depois partira em missão para outros povos. Gregório Magno, por sua vez, testemunhou que a tradição da Igreja reconhecia sua presença em terras distantes, reforçando a imagem de apóstolo missionário. Isidoro de Sevilha, em sua obra De ortu et obitu Patrum, recolheu as tradições disponíveis em sua época, situando São Mateus em diferentes regiões, sempre como mensageiro do Evangelho.

Possíveis confusões com Matias em certos relatos

Em meio a essas memórias, surgiram também confusões. Alguns relatos apócrifos parecem mesclar a figura de São Mateus com a de São Matias, aquele que foi eleito em Atos dos Apóstolos para completar o número dos Doze. Essa mistura ocorreu porque ambos os nomes eram próximos e porque tradições orais, transmitidas sem rigor histórico, acabaram sobrepondo-se. Apesar disso, a identidade de cada um permanece distinta: Mateus é o publicano chamado por Cristo, autor do primeiro Evangelho; Matias é o discípulo escolhido para substituir Judas Iscariotes. Reconhecer essa diferença permite valorizar melhor a contribuição única de cada um para a edificação da Igreja.

Martírio e relíquias

A etapa final da vida de São Mateus está envolta em tradições variadas, que nem sempre concordam entre si. As fontes antigas não oferecem unanimidade quanto à forma de sua morte, mas todas reconhecem que a Igreja o venerou desde cedo como apóstolo e evangelista.

Divergências sobre sua morte

Alguns autores sustentaram que São Mateus teria terminado a vida de maneira pacífica, sem derramamento de sangue. Outros, ao contrário, transmitiram a memória de que ele foi martirizado em missão, pregando entre povos estrangeiros. Essa divergência nasce do silêncio das Escrituras e da diversidade das tradições locais, cada uma guardando fragmentos da lembrança do apóstolo.

Tradição majoritária: venerado como mártir

Apesar das incertezas, a tradição eclesiástica consolidou a veneração de São Mateus como mártir. Os escritos litúrgicos e hagiográficos, mesmo não oferecendo detalhes precisos, insistem em reconhecê-lo entre os apóstolos que deram testemunho da fé com a própria vida. Assim, a Igreja celebra sua memória não apenas como evangelista, mas também como alguém que, seguindo os passos de Cristo, não recuou diante do sofrimento.

Relíquias em Salerno desde o século XI

No século XI, segundo a tradição, as relíquias de São Mateus foram descobertas e transladadas para Salerno, na Itália. Ali, em 1080, sob o pontificado de Gregório VII, a cidade passou a venerar o apóstolo como seu padroeiro. Desde então, a catedral de Salerno conserva suas relíquias e se tornou um centro de peregrinação, mantendo viva a devoção ao evangelista.

Festa litúrgica no Ocidente e no Oriente

A liturgia consagra duas datas distintas para celebrar São Mateus. No Ocidente, sua festa ocorre em 21 de setembro, inserida no calendário romano desde a Antiguidade. Já no Oriente, a memória do apóstolo se celebra em 16 de novembro, em consonância com as tradições bizantinas. Em ambos os ritos, a data recorda não apenas o evangelista, mas o apóstolo que transformou sua vida de publicano em testemunho de fé e, segundo a tradição, selou esse testemunho com o martírio.

São Mateus na arte e na tradição espiritual

A memória de São Mateus não se limita aos relatos bíblicos e às tradições antigas. Ao longo dos séculos, sua figura inspirou a arte cristã e alimentou a espiritualidade do povo fiel. Nas igrejas, nas pinturas e nos ícones, o evangelista aparece como sinal visível de sua missão: anunciar Cristo encarnado e misericordioso.

Símbolo do homem alado

Desde os primeiros séculos, os quatro evangelistas foram associados aos seres vivos descritos na visão de Ezequiel e no Apocalipse de João. Nesse conjunto simbólico, São Mateus recebeu a figura do homem alado, ou do anjo, porque seu Evangelho começa com a genealogia de Jesus, ressaltando sua humanidade. Esse símbolo recorda que o Filho de Deus entrou na história real dos homens e se fez parte de uma linhagem concreta. Portanto, o homem alado representa a encarnação do Verbo e, ao mesmo tempo, a missão de Mateus como evangelista que mostra Cristo próximo da humanidade.

Representações iconográficas

Na tradição iconográfica, São Mateus aparece com atributos que remetem à sua vida e missão. Muitas vezes é retratado com um livro ou um rolo nas mãos, sinal de sua condição de escritor do Evangelho. Em algumas imagens, segura uma pena, instrumento da inspiração divina que guiou sua redação. Outras representações trazem uma lança, símbolo de seu martírio segundo tradições antigas. Além disso, em mosaicos e vitrais, quase sempre o acompanha o anjo ou homem alado, reforçando sua identidade como o evangelista da encarnação.

Valor teológico: anunciar Cristo encarnado e misericordioso

Esses símbolos não se reduzem a meros elementos decorativos; eles expressam um valor profundo. São Mateus anuncia Cristo como Deus feito homem, mas também como médico misericordioso que veio para os pecadores. A arte, ao mostrar o anjo ao seu lado ou a pena em sua mão, convida os fiéis a perceber que o evangelista não escreve apenas por si mesmo, mas inspirado pelo Espírito Santo, para transmitir a mensagem da salvação. Assim, a tradição espiritual vê em São Mateus um testemunho perene de que a misericórdia de Deus se encarnou no mundo e continua a alcançar todos os que se deixam transformar por ela.

Atualidade da mensagem do Apóstolo

A vida de São Mateus não pertence apenas ao passado, mas continua a falar com força à Igreja e ao mundo de hoje. Sua história mostra que a misericórdia de Cristo permanece capaz de transformar os mais improváveis em testemunhas do Evangelho.

A misericórdia que transforma pecadores em apóstolos

O antigo cobrador de impostos de Cafarnaum tornou-se evangelista e apóstolo. Esse contraste revela que ninguém está excluído da chamada de Cristo. O olhar misericordioso que alcançou São Mateus continua a alcançar os homens e mulheres do presente, convertendo fragilidade em missão. Dessa forma, sua vida permanece sinal de esperança para todos os que acreditam que Deus pode transformar o coração humano.

O chamado radical de deixar tudo para seguir Cristo

A resposta imediata de São Mateus, que se levantou da coletoria e deixou tudo, continua a desafiar os cristãos de todas as épocas. Seu gesto radical lembra que o seguimento de Cristo exige coragem para abandonar seguranças e abrir-se inteiramente à graça. Assim, o apóstolo ensina que a verdadeira liberdade não consiste em acumular, mas em entregar-se sem reservas ao Senhor que chama.

A força do Evangelho como dom de Deus para a Igreja

Por fim, a mensagem de São Mateus ressoa em cada página do Evangelho que escreveu. Nele, a Igreja reconhece um presente precioso: a proclamação do Reino dos Céus, o cumprimento das promessas e a certeza da presença de Cristo até o fim dos tempos. Por isso, a sua atualidade não se mede apenas pela lembrança histórica, mas pela vitalidade da Palavra que continua a iluminar, consolar e guiar a comunidade cristã. O apóstolo que um dia foi publicano tornou-se dom de Deus, e seu Evangelho permanece até hoje como herança viva para a Igreja universal.

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