O milagre é uma realidade de tal grandeza que sua definição não se apresenta de modo simples ou imediato. Com efeito, compreender o que é um milagre exige, antes de tudo, distinguir com clareza aquilo que pertence à ordem natural daquilo que é sobrenatural. Sem esse fundamento, toda tentativa de definição corre o risco de cair na confusão, seja diluindo o milagre em tudo, seja negando sua existência.
Por outro lado, há fenômenos extraordinários tão evidentes que não permitem uma explicação meramente natural, impondo ao observador honesto o reconhecimento de uma intervenção direta de Deus. As Sagradas Escrituras estão repletas desses acontecimentos, nos quais o poder divino se manifesta de modo claro, sensível e inegável.
Ainda assim, explicar com palavras o que é um milagre não apenas é possível, como também necessário. Isso, porém, exige uma análise objetiva dos fatos, bem como um esforço para definir, classificar e distinguir suas características essenciais, de modo simples.
Neste artigo, não pretendemos esgotar todas as nuances do tema, nem apresentar a totalidade dos exemplos possíveis, tarefa que estamos reservando para o livro sobre o tema que estamos preparando. Nosso objetivo aqui é mais preciso: esclarecer os aspectos fundamentais, se modo fácil, que permitam uma compreensão objetiva do milagre e oferecer uma definição clara do que ele é.
A ordem natural criada por Deus
Antes de falarmos propriamente de milagre, é necessário compreender a relação entre Deus e a criação. Ao longo da história, diversas correntes filosóficas propuseram explicações distintas. Entre elas, destaca-se o deísmo, que pode ser considerado um dos precursores do ateísmo moderno. Segundo essa visão, Deus teria criado o universo, mas não atuaria mais sobre ele, deixando-o funcionar por meio de leis autossuficientes.
Essa posição contrasta diretamente com a teologia católica, especialmente como foi sistematizada por São Tomás de Aquino:
“Se o poder governante de Deus fosse retirado de Suas criaturas, sua natureza cessaria imediatamente e toda a natureza desabaria.”
Deus opera continuamente na ordem natural, sem a necessidade de milagre propriamente dito: mantém o curso dos astros, sustenta a vida, faz o coração bater e permite que a semente germine. No entanto, essa ação não elimina as leis da criação e sua regularidade.
Por isso, cada ser possui limites definidos. A água permanece água; um morto não retorna à vida; o corpo humano se corrompe após a morte. Mesmo nos processos de cura, há limites claros: ossos quebrados podem se unirem, mas não recriam, por si mesmos, partes ausentes.
Um exemplo extraordinário é caso de Jack Traynor, curado por intercessão de Nossa Senhora Lourdes, não se tratava de uma simples fratura, mas da perda de parte do osso, deixando uma abertura de cerca de dois centímetros no crânio. No entanto, por um milagre, houve regeneração óssea completa. Estamos começando a vislumbrar o que é milagre.
Na ordem natural criada, Deus também fez os anjos, seres espirituais que se dividem em anjos bons e anjos maus (demônios). Embora possuam uma natureza superior, com poderes acima dos humanos, continuam sendo criaturas, limitadas e pertencentes à ordem da criação.
Enfim, temos uma noção, por experiência, temos noção quais são os limites das leis da natureza criadas por Deus. Por ora, isso basta para avançarmos.
Os ataques ao Milagre
Determinados autores, posteriormente chamados de racionalistas, passaram a conceber a natureza como um sistema fechado, no qual não haveria qualquer ação de Deus. Não porque tivessem demonstrado tal coisa, mas porque, a partir de seu modo de pensar, os milagres simplesmente não podiam existir, afinal, muitos deles já não admitiam, sequer, a existência de Deus.
Para sustentar essa negação, redefiniram o próprio conceito de milagre. Em vez da compreensão tradicional da teologia, passaram a descrevê-lo como “suspensão, derrogação ou violação das leis da natureza”. Essa formulação não nasceu da tradição cristã, mas de uma construção filosófica feita justamente para tornar o milagre inaceitável.
Um exemplo claro encontra-se em David Hume, que, ao interpretar termos da tradição escolástica, afirmou:
“O milagre se define exatamente como sendo uma transgressão de qualquer lei da natureza, por uma vontade particular de Deus.” (Ensaio sobre o Entendimento Humano, lição X)
Ora, nunca os teólogos haviam afirmado “qualquer lei”, nem muito menos que o milagre consistisse em uma transgressão ou violação das leis naturais. A formulação é imprecisa, e mais do que isso, estratégica.
Com uma definição equivocada, o caminho fica aberto para a negação: se o milagre é uma violação das leis da natureza, então pareceria contraditório atribuí-lo ao próprio Deus que as criou. Mas essa dificuldade nasce da definição errada, não da realidade do milagre.
Por outro lado, também se observa, em certos ambientes protestantes, a negação sistemática dos milagres atribuídos aos santos católicos. E isso frequentemente ocorre sem exame sério, sem análise histórica e sem consideração das evidências.
Milagre é um fato observável
O milagre não é uma doutrina de fé, nem uma realidade puramente espiritual. Ele acontece no nosso mundo, diante dos homens, e as pessoas podem vê-lo, constatá-lo e analisá-lo. É diferente, por exemplo, da fé na Santíssima Trindade, que cremos pela fé que temos em Deus. O milagre, ao contrário, pertence ao campo dos fatos observáveis.
Quando ocorre um milagre, aqueles que estão presentes observam seus efeitos. Não se trata de uma experiência interior ou subjetiva, mas de um acontecimento real, acessível aos sentidos e ao julgamento humano. Mesmo os milagres do passado, que conhecemos por relatos, sempre envolveram testemunhas que os viram. O que queremos frisar é simples: o milagre se insere no campo da observação e pode ser reconhecido como tal.
Quanto aos milagres do passado, devemos avaliar as fontes que os transmitem. Quem aceita integralmente a Sagrada Escritura, como nós, não encontra dificuldade em admitir os acontecimentos ali narrados. Trataremos mais adiante da questão da autenticidade desses relatos.
Alguns objetam: “os milagres não ocorrem mais”. Mas isso não corresponde à realidade. Eles continuam a ocorrer, mais frequentemente do que imaginamos. Em nosso blog estamos compondo um acervo amplo e fundamento de milagres.
Com essas afirmações, não negamos os milagres espirituais, tais como curas de pensamentos blasfemos involuntários, impulsos contra a fé ou angústias profundas, que Deus pode curar de modo imediato e duradouro, como se observa em casos de curas por intermédio de São Luiz Gonzaga e São Filipe Néri. Ainda assim, mesmo nesses casos, os efeitos se manifestam concretamente na pessoa curada. Por outro lado, o Papa Bento XIV ensina que, nos processos de beatificação e canonização, não basta um milagre espiritual: exige-se também um milagre mais concreto, justamente por seu caráter mais evidente e objetivamente mais fácil de comprovar.
Milagre: características na Bíblia
Para uma visão mais ampla e detalhada sobre o tema do milagre, consulte o nosso artigo Milagres na Bíblia. Nesta seção, vamos apenas destacar alguns pontos que consideramos essenciais para avançar no assunto.
Milagre no Antigo e Novo Testamento
Quando pensamos em milagre, quase sempre recordamos aqueles realizados por Nosso Senhor. Associamos o milagre, sobretudo, às curas extraordinárias; atos que trazem um benefício concreto e imediato, verdadeiros gestos de caridade.
Por esse motivo, muitas vezes esquecemos que, no Antigo Testamento, também ocorreram numerosos eventos extraordinários. E, embora muitos deles trouxessem benefícios ao povo hebreu, também implicaram juízo e castigo. A destruição de Sodoma e Gomorra é claramente um milagre; as pragas do Egito também o são, assim como tantos outros acontecimentos. Considerar esses fatos amplia corretamente nossa compreensão do que é o milagre.
Com a Nova Lei de Jesus Cristo, a caridade ocupa o centro. Por isso, não encontramos nos Evangelhos milagres de castigo propriamente ditos. Ao contrário, os milagres de Cristo se orientam para a cura, a restauração e a salvação.
Encontramos apenas dois casos no período apostólico. Ananias e Safira caem mortos por mentirem ao Apóstolo São Pedro (At 5,1-11). E São Paulo impõe cegueira imediata a Elimas, um mágico que tentava impedir a sua pregação (At 13,6-11). Esses dois casos, também se tratam de milagres; mas são diferentes dos casos em que estamos familiarizados.
A veracidade do Milagre na Bíblia
Nos Evangelhos, os evangelistas narram os milagres de Jesus Cristo com notável precisão e riqueza de detalhes, justamente para deixar claro que o milagre realmente ocorreu. Eles descrevem circunstâncias concretas, pessoas identificáveis e efeitos verificáveis. Assim, ao relatar cada acontecimento, procuram afastar qualquer dúvida, mostrando que não se trata de engano nem de um fenômeno explicável por causas naturais, mas de um verdadeiro milagre.
Quando Jesus Cristo cura o cego de nascença (Jo 9), o apóstolo São João narra o episódio com detalhes que confirmam o milagre e mostram sua imediata investigação pelos fariseus. Primeiro, os vizinhos se admiram e reconhecem que se trata do mesmo homem. Em seguida, os fariseus interrogam seus pais, que confirmam que ele nasceu cego. Depois, interrogam o próprio curado. O ponto central é claro: há múltiplas confirmações tanto da cegueira desde a infância quanto da cura realizada por Jesus Cristo. O evangelista organiza os fatos justamente para que não reste dúvida sobre a natureza verdadeiramente milagrosa.
Quando narra o milagre da Ressurreição de Lázaro (Jo 11,1–45), o apóstolo São João deixa claro, com precisão, que Lázaro realmente estava morto, como se apresentasse, antes de tudo, a confirmação do óbito. Ele afirma de modo enfático: “Lázaro morreu” e acrescenta um dado decisivo: já estava há quatro dias no sepulcro, portanto em estado de decomposição. Marta, sua irmã, confirma com clareza:
“Senhor, ele já cheira mal, porque já aí está há quatro dias” (Jo 11,39)
Impressiona o cuidado de São João, inspirado pelo Espírito Santo, ao narrar um milagre de tamanha grandeza, de modo a não deixar qualquer dúvida sobre sua realidade.
Diante disso, torna-se evidente que os Evangelhos não apresentam os milagres como relatos vagos ou simbólicos, mas como fatos concretos, cuidadosamente verificados e confirmados. O milagre é real, histórico e manifesta, de forma inconfundível, a ação direta de Deus.
Classificação dos Milagres de Jesus
Ao analisarmos os milagres de Nosso Senhor, percebemos que eles não ocorrem de forma desordenada, mas seguem uma certa inteligibilidade. A própria natureza dos fatos permite organizá-los em categorias, o que facilita a compreensão de sua grandeza e de seu significado.
Quanto à classificação, os milagres se distribuem em três grandes tipos. Em primeiro lugar, há os milagres sobre a natureza, nos quais Cristo manifesta seu domínio sobre os elementos e a matéria. Nesse grupo, encontramos, por exemplo, a multiplicação dos pães e a tempestade acalmada. Aqui, a criação obedece imediatamente à sua palavra.
Em segundo lugar, existem os milagres de cura, nos quais Ele restaura o corpo humano. São os mais numerosos: cegos veem, paralíticos caminham, leprosos são purificados. Nesses casos, Cristo não apenas alivia o sofrimento, mas restitui a integridade da natureza humana.
Há os milagres sobre a morte, nos quais Ele devolve a vida. A ressurreição do filho da viúva de Naim, da filha de Jairo e, sobretudo, de Lázaro, mostram de modo claro que seu poder se estende até o último limite da condição humana.
O novo testamento registra também a expulsão de demônio realizada por Jesus Cristo e pelos apóstolos, mas esses merecem alguns esclarecimentos a parte, que faremos no próximo tópico.
Existem ainda dois acontecimentos singulares, que não se enquadram plenamente nessas categorias: a Ressurreição e a Ascensão. Eles pertencem a uma ordem superior, pois não se tratam apenas de intervenções no mundo, mas da manifestação plena de sua glória. Neles, Cristo não apenas realiza um milagre, mas revela definitivamente quem Ele é.
O milagre de expulsar demônios
Não se pode por em dúvida nem a realidade das possessões demoníacas, tampouco, as obras de expulsá-los por Nosso Senhor Jesus Cristo:
O exorcismo tem por fim expulsar os demónios ou libertar do poder diabólico, e isto em virtude da autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja. Muito diferente é o caso das doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. Por isso, antes de se proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata duma presença diabólica e não duma doença. (Catecismo da Igreja Católica § 1673).
Na prática, para reconhecer a expulsão de demônio como verdadeiro milagre ocorrido, é necessário, antes de tudo, ter certeza de que se trata de uma possessão real, e não de uma doença psíquica. Segundo Bento XIV, os sinais mais evidentes de possessão demoníaca são:
Ora, tais sinais são indicados no Ritual Romano e no Sacerdotal Romano: a saber, se alguém fala ou entende uma língua desconhecida; se manifesta coisas distantes ou ocultas; se possui forças acima da idade e condição; se, sendo iletrado e ignorante, fala com erudição, e outros semelhantes. (De Servorum Dei… Livro IV, parte 1, capítulo XXIX, §5).
Porém, o próprio autor adverte:
entre os sinais dos possessos, alguns são certos, outros incertos, e outros apenas prováveis. (idem)
Como se pode perceber, a identificação da possessão (antes mesmo de se considerar o milagre da expulsão), exige critérios objetivos e prudência no julgamento. É necessário constatar a presença de fenômenos que ultrapassem as capacidades humanas, e não simplesmente manifestações exteriores ou emocionais, como gritos ou comportamentos caricaturais, tal como ocorre em muitos ambientes do protestantismo.
As expulsões de demônios, realizadas por sacerdotes exorcistas, que não devem ser consideradas milagre, pois pertencem ao rito ordinário da Igreja. Existem, porém, dois modos extraordinários de exorcismo: 1) um dom que Deus concede a algum santo em vida; 2) o contato ou a presença de relíquias sagradas de algum santo.
Por fim, para que a expulsão do demônio seja considerada milagre (nesses modos extraordinários), ela deve ser imediata e duradoura, sem recaídas. O caso de Maria Madalena é um desses exemplos.
Perceba que, de algum modo, a expulsão do demônio, embora seja um milagre, envolve características que o tornam menos evidente que os demais tipos. Talvez por isso, o importante teólogo bíblico, Fulcran Vigouroux (1837–1915), não a classifica entre os milagres de Jesus Cristo como “milagre propriamente dito”. (Manuel Biblique, vol. 3, pág. 335).
O verdadeiro e falso milagre na Bíblia
A humanidade sempre se admirou diante de fenômenos que fogem à normalidade. No entanto, nem tudo o que impressiona é milagre. Há o verdadeiro e o falso milagre: um provém de Deus; o outro apenas imita, de modo muito inferior.
Essa distinção aparece em alguns episódios bíblicos, por exemplo, nos prodígios de Moisés diante do faraó. Embora os magos também realizem prodígios, o poder de Deus se mostra superior e inconfundível:
“Mas a vara de Arão devorou as varas d’elles.” (Ex 7,12)
Outro exemplo aparece na história de Simão, o Mago. Em Samaria, ele impressionava o povo com suas artes e era considerado “o grande poder de Deus”. No entanto, quando o apóstolo São Filipe realiza verdadeiros milagres, sua pretensa autoridade desmorona (At 8).O verdadeiro milagre, enquanto tal, não se confunde com truques humanos nem com ações preternaturais dos demônios. Contudo, na prática, a limitação da inteligência humana, agravada pela ignorância, leva frequentemente à confusão entre o autêntico e o aparente. É precisamente por isso que a Sagrada Escritura adverte sobre os “falsos sinais”: não porque o verdadeiro milagre seja duvidoso, mas porque o homem pode interpretar mal aquilo que vê.
Por fim, os falsos milagres podem ser realizados pelo demônio, embora jamais se comparem aos verdadeiros milagres de Deus. Muitas vezes, porém, nem é necessário recorrer a tais poderes, tratando-se apenas de truques humanos destinados a impressionar e angariar seguidores. Quanto aos anjos bons, nada realizam que confunda ou obscureça os verdadeiros milagres; pelo contrário, eles os favorecem e confirmam.
Afinal, o que é Milagre?
Cumpre dizer que os fenômenos que identificamos como “milagre” aparecem nas Escrituras com diversos nomes, conforme a língua em que foram escritas: hebraico, grego koiné e latim. A palavra que hoje utilizamos deriva do latim miraculum, que, por sua vez, vem de mirari (admirar-se).
Os teólogos da Patrística iniciaram a reflexão sobre o tema, mas foi o grande gênio de São Tomás de Aquino quem o sistematizou, especialmente na Suma Teológica, com contribuições também na Suma Contra os Gentios e na De Potentia Dei.
Definição de Milagre:
Milagre é aquilo que se realiza contra a ordem comum de toda a natureza criada (Suma Teológica, I, q.110, a.4, sol.), isto é, algo que excede a capacidade da própria natureza (II-II, q.178, a.1, ad 3), podendo ainda ser entendido como tudo o que Deus faz fora das causas naturais que conhecemos (I, q.105, a.7, sol.). Por isso, somente Deus pode realizar milagres, pois tudo o que qualquer criatura, inclusive os anjos, produz se dá segundo a ordem da natureza criada e, portanto, não constitui propriamente um milagre (I, q.110, a.4, sol.).
Ou dito de outra maneira:
Milagre é o efeito extraordinário que Deus realiza por seu poder imediato, excedendo totalmente a capacidade e a ordem de toda a natureza criada.
O padre Miguel Mir (1841-1942), membro da Real Academia Espanhola, nos deixou uma contribuição sobre os milagres que vale a pena reproduzir integralmente:
Por milagre entende-se uma ação extraordinária, pela qual Deus, autor e supremo ordenador do universo, intervém em sua obra, não apenas para comunicar aos agentes criados aquela cooperação ou concurso de que necessitam as causas finitas e contingentes para produzir seus efeitos, mas para agir nelas, ora suspendendo as leis que lhes imprimiu ao criá-las, ora causando efeitos ou fenômenos que excedem sua capacidade e até sejam contrários aos seus impulsos, tendências ou naturezas, ora, enfim, operando conforme esses mesmos impulsos, mas em tais circunstâncias e condições que se veja clara e evidentemente que os agentes naturais não procedem por impulso próprio, mas são instrumentos da operação divina.
Assim, nas obras que chamamos milagrosas, embora os efeitos sejam visíveis e se produzam nas causas que os filósofos chamam segundas, Deus é o agente principal e a causa imediata do fato; entre este e a virtude divina há, por conseguinte, conexão essencial e relação imediata de causalidade; e isto é o que constitui o caráter próprio e a natureza específica da obra milagrosa. Só com esta definição de milagre já bastaria para concluir sua possibilidade e derrubar todas as argúcias, sutilezas e paralogismos dos incrédulos. (Harmonía entre La Ciencia e a Fe. Madrid, 1885, p. 279
Santo São Tomás de Aquino, em sua Exposição sobre o Credo, faz uma analogia muito interessante e simples:
Pode-se ainda responder dizendo que Deus comprova as verdades da fé. Se um rei enviasse suas cartas seladas com o selo real, ninguém ousaria dizer que aquelas cartas não vinham do próprio rei. É claro que as verdades nas quais os santos acreditaram e que nos transmitiram como sendo de fé cristã, estão seladas com o selo de Deus. Esse selo é significado por aquelas obras que uma simples criatura não pode fazer, isto é, pelos milagres. Pelos milagres Cristo confirmou as palavras do Apóstolo e dos Santos. (Exposição sobre o Credo, §10)
Nos Evangelhos, vemos claramente que Cristo realiza milagres para confirmar aquilo que ensina. Seus milagres não são isolados, mas acompanham sua pregação, mostrando que sua autoridade vem de Deus.
“Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis; mas, se as faço, ainda que não queirais crer em mim, crede nas obras.” (Jo 10,37-38)
Santo Tomás sintetiza essa verdade ao afirmar:
“Os milagres sempre são testemunhos verdadeiros daquilo em favor do que são feitos. Por isso, os maus, anunciadores de uma falsa doutrina, nunca operam verdadeiros milagres para a confirmação da sua doutrina.” (Suma Teológica, II-II, q.178, ad. 3)
Além disso, Santo Tomás descreve dois modos pelo qual isso ocorre: 1) confirmação da verdade anunciada; 2) “manifestar a santidade de alguém, que Deus quer propor aos homens como exemplo de virtude.”
Considerar o milagre como assinatura de Deus não é apenas teoria; possui um desdobramento prático, doutrinal e apologético. Santo Antônio de Pádua (1195–1231), conhecido como “Martelo dos Hereges”, combateu com vigor as heresias dos albigenses (cátaros) e dos valdenses. Na abertura de seu túmulo, 32 anos após sua morte, na presença de São Boaventura, constatou-se um fato impressionante: o corpo estava decomposto, restando apenas os ossos e a língua incorrupta, a mesma língua que pregara incansavelmente contra as heresias.
Perceba que, não é necessário debater a doutrina de Santo Antônio com a dos hereges para saber qual é a verdadeira. Deus já respondeu assinando com o milagre, preservando por 32 anos o principal instrumento de sua pregação: sua língua.
Lutero concordava com isso até que…
Na obra de Hartmann Grisar, Luther, vol. III (St. Louis, 1919), ainda hoje uma das mais documentadas sobre Martinho Lutero, encontramos, com base em cartas, sermões e documentos originais, um ponto decisivo: o próprio Lutero reconhece que o milagre é a prova divina de uma missão extraordinária, isto é, a assinatura de Deus que confirma uma doutrina. Grisar não interpreta livremente; ele cita o próprio Lutero:
“Lutero afirmou: ´Quem quer que ensine algo novo ou estranho” deve ser “chamado” para o ofício de pregador´ … Lutero exige uma missão legítima; para o ofício de mensageiro extraordinário de Deus, ele é ainda mais severo. Pois aqui se trata da pregação extraordinária de verdades anteriormente desconhecidas ou universalmente esquecidas ou questionadas, e da reintrodução da doutrina. Aqui ele exige corretamente que quem deseja introduzir algo novo ou ensinar algo diferente do comum, deve ser capaz de apelar para milagres em apoio de sua vocação.…”
E vai além, exigindo um critério objetivo:
“Se ele não puder fazer isso, deixe-o fazer as malas e partir” (Lutero, “Werke”, Weim. ed., 20, pág. 724)
Ele mesmo formula a regra geral:
“Onde Deus deseja alterar os caminhos comuns, Ele sempre realiza milagres.”
E ainda distingue com rigor:
“A [vocação extraordinária] não deve ser creditada a menos que seja atestada por milagres como os realizados por Cristo e Seus apóstolos.”
Martinho Lutero exigiu milagres de outros protestantes, como Carlstadt (reformador radical contemporâneo), Müntzer (líder revolucionário ligado à Guerra dos Camponeses) e os anabatistas (movimento reformista radical), justamente porque, embora também protestantes, defendiam posições diferentes das suas.
Portanto, o princípio está claro em Lutero: doutrina nova exige milagre.
Contudo, quando a questão se volta para ele próprio, o cenário muda completamente. Diante da pergunta inevitável: “Onde estão seus milagres?” Lutero responde que tal exigência seria:
“bastante ociosa”
E afirma que já não são necessários:
“milagres suficientes ocorreram quando o cristianismo foi pregado pela primeira vez…”
Por fim, substitui o critério que ele mesmo havia estabelecido:
“O melhor e maior milagre é… a disseminação e preservação de minha doutrina…”
Perceba a inversão: primeiro, exige milagres como condição indispensável para os outros; depois, como não pode apresentar nenhum em seu próprio caso, abandona esse critério e passa a considerar que a simples difusão de sua doutrina já constitui prova suficiente de sua veracidade.
Nenhum atestado extraordinário vindo do céu o acompanhou, nem qualquer milagre que confirmasse sua doutrina. O testemunho divino por meio de sinais ou profecias, como se vê em Cristo, nos apóstolos e em muitos santos, simplesmente não aparece em seu caso. E, como observa a própria tradição histórica, ninguém sustenta a existência de um milagre real e autêntico realizado por Lutero, nem de qualquer profecia verdadeira associada a ele.
Na ausência de milagres, Calvino usa desculpa similar
Também encontramos em Calvino, a defesa do papel dos milagres como fundamento da verdadeira doutrina:
“Então, na verdade tantos e tão insignes milagres que Moisés menciona são outros tantos endossos da lei por ele próprio outorgada e da doutrina por ele comunicada.” (Institutas, livro 1, cap. 8, §5)
Para justificar a autoridade de Moisés, insiste que as obras extraordinárias realizadas por ele foram aceitas pelo povo porque estavam “suficientemente convencidos pela própria experiência”. Ou seja, os milagres têm a força de convencer o povo acerca da verdadeira doutrina.
Mais adiante, Calvino passa a comentar sobre os milagres de Cristo:
“Portanto, não é de admirar se Cristo tenha evocado seus milagres para impugnar a incredulidade dos judeus, visto que, operados por seu próprio poder, lhe rendiam o mais amplo testemunho da divindade.” (Institutas, livro 1, cap. 13, §13)
Ele reconhece, portanto, o princípio universal: milagres confirmam a verdade revelada. No entanto, ele se apoia constantemente nos milagres de Moisés, de Cristo, dos profetas e dos apóstolos, isto é, milagres passados, que não pertencem a sua doutrina.
Mas na carta que dirigiu ao rei Francisco I da França, em 1536 (prefácio das Institutas), ele relata que é cobrado a demonstrar milagres que comprovem a sua doutrina. Porém, diante da ausência total de milagres em favor da sua Reforma, Calvino reage: “O fato de exigirem de nós milagres, agem de má fé.” E tenta escapar afirmando: “não estamos a forjar algum evangelho novo”. Mas, ao mesmo tempo, ele próprio admite o princípio: “os milagres… outrora operaram assim Cristo como os apóstolos”.
Ou seja: reconhece que Deus confirma a verdade por milagres, mas esses milagres pertencem ao passado e não à sua própria doutrina. E por quê? Porque não há nenhum milagre existente que tenha sido documentado.
Diante disso, ele recorre a um verdadeiro malabarismo lógico:
“é conveniente examinar e investigar, em primeiro lugar, a doutrina… a qual o evangelista diz ter precedência sobre os milagres; doutrina que, se for aprovada, só então… receberá a confirmação dos milagres”.
A doutrina já está previamente “aprovada”, e, portanto, o milagre se torna desnecessário. A vaidade e arrogância de Calvino são dignas de nota: primeiro cria sua doutrina, analisa-a pelo critério do Sola Scriptura (subjetivo), convence-se de que está certa e, a partir daí, a confirmação de Deus por milagres simplesmente não importa. Seus supostos “poderes mentais” passam a ocupar o lugar do milagre e o lugar de Deus.
Deus assina com milagres católicos contra os protestantes
Enquanto os dois principais reformadores não conseguiram apresentar um milagre autêntico em seus meios, na mesma época, no seio da Igreja Católica, os milagres floresciam.
Vamos considerar, de modo especial, o fenômeno dos chamados corpos incorruptos de santos: casos em que o corpo, após a morte, permanece preservado da decomposição natural, sem qualquer procedimento de embalsamamento, mantendo-se intacto, inclusive com partes internas conservadas.
Esse fenômeno não ocorre em qualquer pessoa, mas está associado àqueles que viveram virtudes heroicas, sendo reconhecido pela Igreja como um sinal sensível da ação de Deus na vida dos santos.
A assinatura de Deus contra o Luteranismo
Enquanto Martinho Lutero encerrava sua trajetória (†1546), um missionário jesuíta já havia levado o catolicismo para além da Europa. Quando Lutero morreu, São Francisco Xavier já evangelizava a Índia (desde 1542) e regiões do Sudeste Asiático (Malaca e Molucas), com conversões reais e numerosas ao catolicismo.
A história de seu corpo impressiona pela sequência de fatos documentados e testemunhos ao longo do tempo.
Em 2 de dezembro de 1552, o missionário morre na ilha de Sancião, às portas da China, com 46 anos. Dois dias depois, seu corpo é colocado em um caixão com cal viva, prática destinada a acelerar a decomposição.
Contudo, em 17 de fevereiro de 1553 (dois meses depois), ao abrirem o caixão, ocorre o primeiro grande espanto: o corpo aparece inteiro, incorrupto, com aspecto vivo, contrariando todas as expectativas naturais.
Em 22 de março de 1553, o corpo chega a Malaca e, depois, a Goa, onde multidões passam a venerá-lo.
Diante de suspeitas de embalsamamento, realiza-se um exame oficial em 18 de novembro de 1556. O médico Dr. Cosme Saraiva declara, sob juramento, que o corpo não foi embalsamado, apresenta órgãos intactos e sinais orgânicos incompatíveis com a decomposição.
Mais de um século depois, em 1614 e novamente em 1624, novas exumações confirmam o estado extraordinário: corpo flexível, aparência viva e conservação incomum, fato que impressiona inclusive não católicos e contribui para conversões.
Por fim, em 5 de janeiro de 1798, o corpo é colocado em urna de vidro em Goa. Ainda hoje, apesar das agressões humanas e do desgaste natural, permanece como um dos casos mais notáveis e documentados de incorrupção na história da Igreja.
Deus assina contra o Calvinismo
Santa Joana de Lestonnac nasceu em 1556, em Bordeaux, na França, em pleno avanço do calvinismo. Quando tinha cerca de 17 anos (1573), o país vivia intensas tensões religiosas, com o calvinismo fortemente difundido em diversas regiões.
Seu pai permaneceu fiel ao catolicismo, enquanto sua mãe aderiu fanaticamente ao calvinismo de João Calvino. Por isso, desde jovem, sofreu maus-tratos e pressões constantes para abandonar a fé católica, mas resistiu firmemente.
Casou-se aos 17 anos, teve quatro filhos e ficou viúva em 1597. Mais tarde, ao ver os próprios filhos influenciados pelo ambiente calvinista, marcado pela ação da avó, decidiu entrar em um convento em Toulouse. Permaneceu apenas seis meses, sendo obrigada a sair por motivos de saúde.
De volta a Bordeaux, reuniu um grupo de jovens e, então, fundou a Companhia de Maria (Notre-Dame de Bordeaux), aprovada pelo Papa Paulo V em 1607, com o propósito de educar jovens na fé católica em um contexto profundamente marcado pelo calvinismo.
Morreu em 2 de fevereiro de 1640 e foi sepultada no cemitério da congregação, na Rue de Hâ.
Quando, em 1791, durante a Revolução Francesa, tentaram resgatar seus restos mortais para evitar a profanação, esperavam encontrar apenas ossos. No entanto, encontraram o corpo intacto: flexível, macio, com carne como de uma pessoa viva, mais de 150 anos após a morte.
E então Deus assinou com um milagre: preservando o corpo daquela que resistiu firmemente à heresia calvinista.
O Milagre como critério definitivo da verdadeira doutrina
Ao longo da história, o padrão se repete com clareza: onde Deus ensina, Ele confirma. A doutrina verdadeira não se impõe apenas por argumentação ou convicção pessoal, mas recebe um selo visível, objetivo e verificável. Esse selo é o milagre.
Se a Bíblia é a Palavra de Deus, o milagre é o seu selo inconfundível. O método protestante (somente as Escrituras), na prática, reduz-se à interpretação individual: cada um lê e decide por si, gerando inevitavelmente múltiplas seitas, pois tudo se apoia na subjetividade do pregador. Trata-se de pura vaidade e arrogância: confiar no próprio juízo como critério último, fechar-se nas próprias elucubrações mentais e ignorar o dado objetivo que Deus deixou.
Tomemos, por exemplo, alguns ataques do protestantismo: a veneração dos santos e o fato de Maria Santíssima nascer sem pecado. Alegam que “não está na Bíblia”, que é idolatria. Será? Em vez de discussões vãs, consideremos em qual direção Deus assina com o milagre.
Deus realizou incontáveis milagres por meio dos santos ao longo da história. De Santa Catarina da Suécia contam-se 143 milagres. Santo Tomás de Aquino, como registram fontes da época e seu processo de canonização, teve inúmeros milagres realizados. E em todos os santos o padrão se repete.
Os católicos professam que Deus preservou Maria do pecado (Imaculada Conceição). Nossa Senhora das Graças apareceu a Santa Catarina Labouré em 1830 e pediu a Medalha Milagrosa com a inscrição: “Ó Maria concebida sem pecado”. Depois, Nossa Senhora de Lourdes apareceu a Santa Bernadete em 1858 e declarou: “Eu sou a Imaculada Conceição”. E Deus assinou: Deus conservou por milagre o corpo incorrupto de Santa Bernadete e o corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré.
Diante desses fatos, torna-se vazia qualquer tentativa de negar a veneração católica: Deus já respondeu.
Anjos e demônios realizam algum milagre?
Anjos e demônios compartilham a mesma natureza angélica, sendo seres puramente espirituais. Para o presente argumento, desconsiderando as diferenças de grau dentro da hierarquia angélica, ambos possuem poderes superiores aos dos seres humanos e e semelhantes segundo a natureza: podem agir sobre a imaginação humana e influenciar indiretamente a vontade do homem, sem jamais determiná-la diretamente. O Catecismo ensina que os anjos “excedem em perfeição todas as criaturas visíveis” (§330). No entanto, como criaturas, são limitados e infinitamente inferiores a Deus. Suas ações no mundo pertencem à ordem preternatural, isto é, acima da natureza humana, mas abaixo do sobrenatural propriamente dito. poderes e semelhantes segundo a natureza
É por este motivo que Santo Tomás afirma:
Certos milagres não são verdadeiros mas obras fantásticas com que se o homem ilude, julgando mal o que não o é. Outros são verdadeiros, embora não constituam essencialmente milagres, por se realizarem em virtude de certas causas naturais. Ora, essas duas espécies de milagres os demônios podem fazê–las. (Suma Teológica, II-II, q. 178, a. 2, sol.)
Contudo, há uma diferença fundamental entre anjos bons e demônios. Enquanto os anjos e os santos podem ser instrumentos dos milagres de Deus, operando sob a sua ação, os demônios, privados da graça, não agem senão por seus próprios poderes naturais. Por isso, mesmo quando produzem efeitos extraordinários, estes não procedem da ação divina, mas apenas dos limites de sua própria natureza.
Vamos explorar esse aspecto, para que resplandeça a singularidade do verdadeiro milagre. E para isso, vamos recorrer novamente a Santo Tomás em sua obra De Potentia Dei (Sobre o Poder de Deus).
Criaturas espirituais podem realizar milagre por seu próprio poder?
Em De Potentia Dei, q. 6, a. 3, Santo Tomás de Aquino responde esta questão em detalhes.
A resposta é negativa, mas com uma distinção essencial. Os anjos, bons ou maus, possuem um poder superior ao das criaturas corpóreas e podem produzir efeitos admiráveis. No entanto, esse poder não alcança o núcleo do milagre.
Segundo Santo Tomás, nenhuma criatura espiritual pode, por seu próprio poder, imprimir diretamente a forma na matéria ou produzir um efeito fora de toda a ordem das causas naturais. Elas atuam sempre por mediação: movendo corpos localmente e aplicando as causas naturais para produzir determinados efeitos.
Por isso, sua operação não é propriamente milagrosa, mas se assemelha à arte: utilizam as forças da natureza de modo mais perfeito, mais rápido e mais oculto do que o homem. Assim, podem produzir efeitos que parecem extraordinários, mas que permanecem dentro da ordem natural.
O ponto decisivo é este: o milagre exige uma ação imediata de Deus, que ultrapassa toda a capacidade da natureza criada. Como a criatura espiritual é limitada e não pode agir diretamente sobre a essência das coisas, seu poder nunca atinge esse nível.
Portanto, embora anjos e demônios possam realizar obras admiráveis, não podem, por seu próprio poder, realizar verdadeiros milagres, estes pertencem exclusivamente a Deus.
Como anjos e santos participam dos milagres
Após demonstrar que nenhuma criatura espiritual pode realizar milagres por seu próprio poder natural, Santo Tomás de Aquino avança a questão em De Potentia Dei, q. 6, a. 4: se anjos e homens bons podem realizar milagres pelo dom da graça.
A resposta é afirmativa, mas com uma distinção decisiva. Os milagres pertencem somente a Deus como causa principal, pois somente Ele pode agir fora de toda a ordem da natureza. Contudo, Deus pode usar criaturas como instrumentos dessa ação.
Santo Tomás explica que anjos e santos podem cooperar nos milagres de três modos. Primeiro, pela oração, impetrando de Deus o efeito milagroso. Segundo, dispondo a matéria, isto é, preparando as condições naturais para que Deus opere o milagre. Terceiro, como verdadeiros instrumentos da ação divina, na medida em que o comando de Deus passa por eles e, por meio deles, atinge a criação.
Mas é essencial compreender: essa participação não significa que possuam um poder próprio para fazer milagres. Não há neles uma capacidade permanente de produzir o sobrenatural. Ao contrário, agem sempre dependentes de Deus, como instrumentos movidos pela causa principal.
Por isso, Santo Tomás conclui com precisão: somente Deus realiza milagres por autoridade; as criaturas os realizam apenas por participação, no ministério da graça.
Os demônios podem realizar algum milagre?
No mesmo tratado, em De Potentia Dei, q. 6, a. 5, Santo Tomás de Aquino enfrenta diretamente a questão: se os demônios realizam milagres.
A resposta mantém a mesma linha dos artigos anteriores: não realizam verdadeiros milagres. Contudo, o motivo agora é aprofundado.
Santo Tomás explica que os demônios podem produzir efeitos extraordinários de dois modos. Primeiro, por uma verdadeira transmutação corporal, utilizando causas naturais que conhecem perfeitamente e aplicam com grande rapidez e precisão. Segundo, por meio de ilusões, atuando sobre a imaginação humana e fazendo com que algo pareça diferente do que realmente é.
Em ambos os casos, os efeitos podem impressionar e até enganar, parecendo milagrosos. Mas não o são. Permanecem sempre dentro dos limites da natureza criada.
O ponto decisivo é teológico: Deus não concede aos demônios o poder de realizar milagres verdadeiros, tal como para os homens e santos, porque o milagre é um testemunho divino da verdade. Se os demônios pudessem realizá-los, Deus estaria confirmando o erro, o que é incompatível com sua bondade e verdade.
Por isso, mesmo quando produzem sinais impressionantes, como os mencionados nas Escrituras ou nas histórias, trata-se ou de uso oculto das forças naturais, ou de ilusão dos sentidos.
Assim, conclui Santo Tomás: os demônios podem fazer coisas admiráveis, podem enganar, podem produzir efeitos reais e surpreendentes, mas não podem, em sentido próprio, realizar milagres.
A veracidade histórica dos Milagres Católicos
Desde os primeiros séculos do cristianismo, a Igreja preocupou-se em registrar, com cuidado, os martírios de homens e mulheres dispostos a morrer antes de negar a fé em Cristo.
Essa mesma preocupação nunca cessou. Ao longo dos séculos, a Igreja continuou a documentar a vida dos santos, seus testemunhos e os milagres associados a eles. Não se trata de uma prática ocasional, mas de uma tradição contínua de registro, investigação e transmissão histórica.
Mas, apesar desse zelo contínuo e rigoroso na preservação dos testemunhos, o protestantismo procurou, em grande medida, suprimir da memória histórica do cristianismo essas figuras que viveram com virtude heroica e pelas quais Deus operou inúmeros milagres.
Essa supressão, outrora realizada pela violência, hoje se dá sobretudo pela negação: rejeitam-se os milagres católicos como verdadeiros e efetivos sinais da assinatura de Deus. É sob esse aspecto que abordaremos o tema nesta seção.
Inglaterra: violência e ódio contra os milagres católicos
Como se não bastasse o rei Henrique VIII (1491–1547) separar-se da Igreja Católica para fundar a Igreja Anglicana, movido pelo desejo de anular seu matrimônio e casar-se com Ana Bolena, não hesitou em recorrer à violência para impor sua ruptura.
Mandou decapitar São João Fisher (1469–1535) e São Thomas More (1478–1535), seu próprio primeiro-ministro, ambos fiéis à Igreja até o martírio.
A partir daí, iniciou, junto com Thomas Cromwell (c. 1485–1540), seu principal ministro, uma ação sistemática de destruição de mosteiros, saque de igrejas e relíquias sagradas da Igreja Católica e, em particular, a profanação de túmulos, atingindo os corpos incorruptos de santos católicos, como atestam William Cobbett, em A History of the Protestant Reformation in England and Ireland, e Eamon Duffy (Professor Emérito de História do Cristianismo na Universidade de Cambridge), em The Stripping of the Altars: Traditional Religion in England.
Tudo isso para apagar qualquer vestígio de milagre, qualquer vestígio da assinatura de Deus.
Entre os casos mais significativos, destacam-se corpos incorruptos de santos que, mesmo após séculos, foram encontrados preservados e, ainda assim, submetidos à profanação no contexto da Reforma inglesa:
- São Cuthbert (†687): em 1537, durante a visitação ordenada por Thomas Cromwell em Durham, o túmulo foi aberto por comissários reais; o corpo foi encontrado amplamente incorrupto, causando surpresa, mas o santuário foi saqueado, o caixão violado e o corpo exposto antes de ser reenterrado.
- Santa Etheldreda (†679): tradicionalmente venerada por seu corpo incorrupto desde o século VII, teve seu santuário destruído entre 1539 e 1541, durante a dissolução dos mosteiros sob Henrique VIII; suas relíquias foram dispersas e o culto suprimido.
Além desses, inúmeros outros casos de profanação atingiram relíquias e túmulos de santos, como os de São Edmundo, São Hugo de Lincoln e Santa Withburga.
Calvinistas executam santo: mas Deus preserva o corpo por milagre
Após as perseguições anglicanas, a Inglaterra caiu sob forte influência dos sectários calvinistas, especialmente durante o governo de Oliver Cromwell. Nesse contexto, a repressão ao catolicismo não cessou, mas assumiu novas formas, agora sob um regime que considerava o sacerdócio católico um crime capital.
Além do caso já mencionado da assinatura de Deus em Santa Joana de Lestonnac, Deus depõe novamente contra a “heresia calvinista” com o “milagre” do “corpo incorrupto de São João Southworth”. Nascido por volta de 1592, São João Southworth exerceu o ministério sacerdotal clandestinamente em Londres, sendo preso diversas vezes. Mesmo diante do risco de morte, continuou assistindo os fiéis, inclusive durante a peste.
Por fim, foi condenado e executado em 28 de junho de 1654, em Tyburn, sendo enforcado, arrastado e esquartejado por exercer o sacerdócio católico. Seu corpo, porém, não foi abandonado: o embaixador espanhol Alonso de Cárdenas resgatou-o imediatamente, pagando ao carrasco, e providenciou sua recomposição. Em 1655, foi levado ao Colégio Inglês de Douai, na França, onde permaneceu por séculos.
Mesmo após morte tão violenta, o corpo não seguiu o curso normal da decomposição. Redescoberto em 1927, foi posteriormente trasladado para a Catedral de Westminster, onde permanece até hoje. Assim, aquilo que foi perseguido e condenado pelos homens, Deus confirmou de modo visível: o “milagre” permanece como testemunho concreto de sua ação.
A impossibilidade de atribuir ao demônio os milagres católicos
Diante dos milagres documentados na Igreja, alguns afirmam que seriam “falsos sinais” ou até obras do demônio. A objeção, porém, não se sustenta.
Tomemos um caso já mencionado: a cura de Jack Traynor. Não se tratava de simples melhora, mas da regeneração real de parte do osso — algo que ultrapassa totalmente a capacidade da natureza. Trata-se, portanto, de verdadeiro milagre.
Segundo Santo Tomás de Aquino, os demônios não podem realizar milagres propriamente ditos. Sua ação limita-se ao uso das causas naturais ou à produção de ilusões. Não podem agir fora da ordem da natureza criada, nem produzir efeitos que excedam suas leis.
Assim, o demônio não pode regenerar um osso inexistente, nem restaurar instantaneamente aquilo que a natureza não consegue produzir. Falta-lhe poder para isso.
Mas a dificuldade não é apenas de poder, é também de finalidade. Seria necessário admitir que o demônio cura doenças reais, produz benefícios concretos e duradouros e, ao fazê-lo, confirma a fé em Jesus Cristo.
Mais ainda: seria preciso afirmar que o demônio preserva corpos incorruptos de pessoas que viveram em santidade. Ora, ele não possui poder para suspender o processo natural de decomposição do corpo humano, que pertence à ordem estabelecida por Deus.
O argumento, portanto, é duplamente impossível: nem o demônio tem poder para realizar tais obras, nem teria motivo para promovê-las.
Segue-se, com necessidade lógica, que o verdadeiro milagre não pode proceder do demônio. E, sendo milagre, só pode proceder de Deus.
Documentação histórica do milagre: o Milagre de Calanda
O chamado Milagre de Calanda não é uma tradição vaga ou lendária, mas um dos casos mais bem documentados da história.
Em 1637, na Espanha, uma carroça passou sobre a perna do jovem Miguel Juan Pellicer. Precisou amputar a direita no Hospital Real de Zaragoza, após gangrena, fato confirmado por médicos como Juan de Estanga e outros cirurgiões. O membro amputado foi inclusive sepultado, conforme o costume da época. Durante anos, foi visto publicamente como mendigo sem perna, fato atestado por numerosas testemunhas.
Devoto de Nossa Senhora do Pilar, ele pediu insistentemente a sua cura. Na noite de 29 de março de 1640, já em sua casa em Calanda, ocorreu o milagre: sua perna foi repentinamente restituída enquanto dormia. Seus pais foram os primeiros a verificar o ocorrido, constatando a presença das duas pernas.
No dia seguinte, autoridades locais compareceram: o prefeito Miguel Escobedo, o notário público Lázaro Macario Gómez, o vigário Jusepe Herrero, o juiz Martín Corellano e cirurgiões convocados como peritos. Poucos dias depois, em 2 de abril de 1640, foi lavrado um ato notarial oficial por Miguel Andreu, documento que ainda hoje encontra-se no gabinete do prefeito de Zaragoza.
No referido ato notarial, dez testemunhas depuseram sob juramento, afirmando terem visto Miguel durante anos sem a perna, apoiando-se em prótese. O próprio documento registra que estavam dispostas a jurar “por Deus, pela Cruz e pelos Santos Evangelhos” a veracidade dos fatos.
Em 1641, o arcebispo de Zaragoza, Pedro Apaolaza Ramírez, abriu processo canônico formal. Médicos confirmaram a amputação anterior; testemunhas confirmaram a restituição. Após análise rigorosa, foi declarada oficialmente como milagre.
A importância dos Bolandistas para o milagre
Na Idade Média, circularam diversas obras hagiográficas que misturavam fatos históricos com elementos simbólicos e tradições populares. Um exemplo clássico é a Legenda Áurea de Jacopo de Varazze, onde episódios como o de São Jorge e o dragão expressam mais o imaginário religioso do que um rigor histórico estrito. Diante disso, no século XVII, surgiu uma reação decisiva no interior da própria Igreja.
O jesuíta Jean Bolland deu início a um empreendimento sem precedentes: uma investigação crítica, histórica e documental sobre a vida dos santos. Assim nasceu a Sociedade dos Bolandistas (existe ainda hoje). Esses estudiosos percorreram mosteiros, arquivos e bibliotecas por toda a Europa, buscando manuscritos originais e testemunhos contemporâneos aos fatos. Seu método era claro: sem documento antigo, não há certeza histórica. Quando não encontravam base documental suficiente, classificavam o relato como incerto ou rejeitavam-no.
O resultado desse esforço monumental foi a obra Acta Sanctorum (cerca de 67 volumes), uma coleção crítica que difere profundamente das compilações piedosas anteriores. Ali, os milagres e fatos da vida dos santos são apresentados com aparato crítico, referências às fontes e análise rigorosa. Entre os principais colaboradores destacou-se também Daniel Papebroch, braço direito de Bolland nesse trabalho.
É verdade que, em alguns casos, o rigor extremo levou à rejeição de tradições que posteriormente receberam novas confirmações históricas, como se observa em debates sobre Santa Cecília. Ainda assim, o método bolandista permanece um marco na historiografia.
Por isso, quando um milagre antigo é confirmado por documentos da época e aceito após exame crítico pelos bolandistas, ele se encontra sob um nível de verificação raríssimo para eventos históricos. Diante disso, negar indiscriminadamente tais relatos não é postura científica, mas recusa dos próprios critérios históricos: estamos diante de um corpo documental tão rigoroso que é, em grande medida, imune a acusações sérias de falsidade.
Conclusão sobre o tema do Milagre
Ao longo deste estudo, tornou-se evidente que o milagre não é uma noção vaga ou subjetiva, mas um fato real, inserido na história e acessível à verificação humana. Longe de ser uma “violação” arbitrária das leis naturais, ele consiste na ação imediata de Deus, que ultrapassa toda a capacidade da natureza criada, confirmando de modo visível aquilo que Ele ensina.
Vimos que a própria Sagrada Escritura apresenta os milagres como fatos concretos, cuidadosamente narrados e confirmados por testemunhas. Do mesmo modo, a Igreja, ao longo dos séculos, manteve uma tradição contínua de documentação, investigação e discernimento, garantindo que tais acontecimentos não fossem aceitos sem exame rigoroso. Casos como o de Calanda demonstram que não estamos diante de lendas, mas de eventos sustentados por provas históricas, testemunhos juramentados e processos formais.
Além disso, ficou claro, à luz da teologia de Santo Tomás de Aquino, que o verdadeiro milagre pertence exclusivamente a Deus. Nem os anjos, nem os demônios possuem poder para produzi-lo por si mesmos. Assim, atribuir ao demônio obras que restauram a natureza, confirmam a santidade e conduzem à fé em Cristo não apenas contraria a teologia, mas também a razão.
Por fim, impõe-se a conclusão central: o milagre é o selo de Deus na história. Onde Ele ensina, Ele confirma. Negar esse selo não é simplesmente rejeitar um fenômeno extraordinário, mas recusar o próprio testemunho objetivo que Deus deixou para que o homem reconheça a verdade.