Maria Madalena era Prostituta?

Maria Madalena era Prostituta?

Tornou-se uma crença popular que a personagem dos Evangelhos Maria Madalena era prostituta. Mas, a resposta à pergunta é simples e direta: não, ela não era. Segundo os Evangelhos, essa associação jamais existiu. Ainda assim, a ideia se espalhou, ganhou força e atravessou séculos como se fosse uma verdade óbvia.

Mas de onde veio essa história? Certamente não veio do papa São Gregório Magno, como alguns protestantes insistem em repetir. Essa acusação recorrente, a de que “ele criou a ideia de Maria Madalena prostituta”, não passa de uma simplificação grosseira e historicamente incorreta.

Portanto, é preciso afirmar desde já: nem Maria Madalena era prostituta, nem o papa Gregório Magno inventou essa imagem dela. Apesar de essa imagem estar impregnada na mentalidade popular.

E é exatamente isso que este artigo vai esclarecer. Explicaremos em detalhes os evangelhos e as interpretações que surgiram. Mostraremos ainda, como e por que surgiu a confusão. E, finalmente, desmontaremos a farsa que atribui a São Gregório Magno a origem dessa narrativa que nunca lhe pertenceu.

Em primeiro lugar, precisamos indicar que, mesmo se Maria exercesse tal ocupação, isso não afetaria a fé. Trata-se apenas de uma questão exegética, isto é, de interpretação do texto e de aprofundamento das Escrituras. No entanto, o tema ganha importância quando, em meio a uma polêmica bíblica, surgem distorções históricas graves, repetidas por alguns. Além do mais, para os católicos ela é Santa Maria Madalena.

Os Evangelhos não dizem que Maria Madalena era prostituta

Nos Evangelhos, Maria Madalena, Maria de Magdala (grego: Μαρία ἡ Μαγδαληνή; Vulgata: Maria Magdalena) — aparece como a mulher de Magdala que foi curada e convertida por Nosso Senhor. O que apresentamos abaixo é o seu retrato quando ela é textualmente nomeada, onde não restam dúvidas que se referem a ela.

São Lucas a apresenta de modo claro como “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8,2), e São Marcos confirma a cura ao afirmar que Jesus “apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expulsara sete demônios” (Mc 16,9).

Por fim, ela surge entre as discípulas que acompanhavam o Senhor em Suas viagens apostólicas e O serviam com seus próprios recursos, o que indica posição social estável e profundo devotamento. No Calvário, Maria Madalena permanece firme e silenciosa aos pés da cruz, ao lado da Virgem Maria, no momento em que o Evangelho de São João registra: “Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe […] e Maria Madalena” (Jo 19,25).

Maria Madalena na morte e Ressurreição de Nosso Senhor

Os Evangelhos Sinópticos também a mencionam entre as mulheres que testemunharam a morte do Senhor. Ela observa com atenção o lugar onde Ele foi sepultado (Mt 27,55–56; Mc 15,40–41; Lc 23,49; Mc 15,47; Lc 23,55). No primeiro dia da semana, ainda antes do amanhecer, dirige-se ao sepulcro. Encontra a pedra removida (Mt 28,1; Mc 16,1–2; Lc 24,1; Jo 20,1). Corre então para avisar os apóstolos São Pedro e São João e declara: “Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram” (Jo 20,2).

Maria Madalena era Prostituta?

Ela permanece junto ao túmulo. Chora. Vê dois anjos. Em seguida, encontra o Ressuscitado. Ele a chama pelo nome e lhe confia o anúncio pascal: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17–18).

A tradição apostólica, testemunhada por São Marcos, confirma o privilégio que ela recebeu ao declarar que o Cristo “apareceu primeiro a Maria Madalena” (Mc 16,9).

Depois desse episódio, os Evangelhos silenciam sobre sua vida posterior, embora seja verossímil que estivesse entre as mulheres presentes no Cenáculo, unidas aos Apóstolos e à Santa Virgem, recebendo o Espírito Santo no Pentecostes (At 1,14; 2,3).

Por outro lado, a história documentada só volta a mencioná-la séculos mais tarde nas tradições que veneravam seu túmulo em Éfeso, atribuíam suas relíquias a Constantinopla ou a situavam na Provença, sempre sem certeza histórica. O dado seguro permanece o da Escritura: É a discípula curada, fiel ao Calvário e primeira testemunha da Ressurreição. Nenhuma menção que Maria Madalena era prostituta. 

Maria Madalena era Prostituta?

Porém, há espaço para interpretar os “sete demônios”… Por que este número de demônios?

Outras mulheres nos Evangelhos

Primeiramente, para compreender corretamente quem foi Maria Madalena e esclarecer a atribuição de prostituição, é necessário considerar que os Evangelhos mencionam outras mulheres que aparecem em episódios semelhantes e, por vezes, sem nome. Essas personagens, aparentemente distintas entre si, foram, ao longo dos séculos, objeto de aproximações, leituras espirituais e tentativas de unificação feitas por alguns autores.

Embora tais aproximações não tenham criado, por si mesmas, a ideia de que Maria Madalena era prostituta, elas formam o pano de fundo que mais tarde permitiu que essa interpretação se enraizasse.

1. A Pecadora Anônima

A primeira figura é a mulher pecadora mencionada por São Lucas. O Evangelho narra que, durante um jantar na casa de Simão, o fariseu, “uma mulher pecadora da cidade” entrou, aproximou-se de Jesus, regou Seus pés com lágrimas, enxugou-os com os cabelos e os ungiu com perfume (Lc 7,36–50).

A pecadora do Evangelho de Lucas era prostituta?

O texto não dá seu nome a esta “pecadora”. Não diz que era de Magdala. Não afirma que seguiu Jesus depois do episódio. Tampouco a relaciona com Maria de Betânia. A única informação concreta é sua condição moral, pecadora pública, e sua conversão sincera diante do Senhor, que lhe declara: “Teus pecados estão perdoados” (Lc 7,48).

2. Maria de Betânia, Irmã de Marta e de Lázaro

A segunda figura envolvida, após Maria de Magdala, é Maria de Betânia. Ela aparece em três contextos claros: recebe Jesus em sua casa e senta-se aos Seus pés para ouvi-Lo (Lc 10,38–42); chora diante d’Ele na morte de Lázaro e testemunha sua ressurreição (Jo 11,1–44). Mas, o mais importante ocorreu seis dias antes da Páscoa, quando ungiu os pés de Jesus em Betânia e enxugou com os próprios cabelos (Jo 12,1–8).

O Evangelho de São João a identifica explicitamente como “Maria, irmã de Marta” (Jo 11,2), e sua vida situa-se na Judeia, em Betânia, não na Galileia.

Maria de Betânia unge Jesus

Nem Maria Madalena era prostituta, nem as outras são mencionadas que são prostitutas.

Sobre isso precisamos fazer alguns esclarecimentos importantes para compreendermos melhor a evolução do tema.

Maria Madalena, jamais é designada como prostituta

No caso de Maria Madalena, a conclusão é simples e direta: quando citada nominalmente ou pela condição da cura dos sete demônios, os Evangelhos nunca a chamam de prostituta, nem usam qualquer termo que permita essa interpretação. Sempre que o Novo Testamento deseja designar explicitamente uma prostituta, os manuscritos gregos empregam vocábulos claros e inequívocos.

O termo mais comum em grego koiné é πόρνη (pórnē), “prostituta”, derivado de πέρνημι (pérnēmi, “vender”), indicando literalmente “mulher que se vende sexualmente”. O texto sagrado também utiliza πόρνος (pórnos, “prostituto, devasso*) e o adjetivo πορνικός (pornikós, “relativo à prostituição”). Esses termos aparecem sempre que o contexto exige essa identificação explícita:

  • “as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21,31 – πόρναι);
  • “Raab, a prostituta” (Hb 11,31 – ἡ πόρνη Ῥαάβ);
  • “quem se une a uma prostituta torna-se com ela um só corpo” (1Cor 6,16 – πόρνῃ).

Contudo, nenhuma dessas palavras é usada quando Maria Madalena é mencionada pelos Evangelhos. Ela nunca recebe o título de πόρνη nem qualquer termo equivalente na Vulgata. A Escritura a apresenta apenas como a discípula curada, fiel ao Calvário e primeira testemunha da Ressurreição, jamais como prostituta.

A “pecadora” seria prostituta?

O Evangelho não afirma textualmente que essa mulher fosse prostituta. São Lucas emprega a palavra ἁμαρτωλός (hamartōlós), que significa simplesmente “pecadora”, isto é, alguém de má reputação moral, sem especificar a natureza do pecado.

O relato indica que ela gozava de má fama por desregramentos públicos, seja na própria Cafarnaum, seja em suas proximidades. Além disso, o contexto sugere que sua notoriedade exigia alguma visibilidade social; uma mulher do estrato mais humilde dificilmente teria provocado igual escândalo, mesmo se vivesse em desordem moral. Em suma, Lucas descreve a condição social e reputacional, não a profissão.

Por outro lado, que pecado público teria causado tal má fama? Existem várias possibilidades plausíveis, que convém analisar em seguida.

Tipos de pecados públicos

Nos Evangelhos, o termo “pecadora” abrange várias formas de desordem moral pública. Por isso, a mulher de Lucas 7 pode ter vivido diferentes situações que explicam sua má fama.

Uma possibilidade é o adultério público, como o caso da mulher flagrada em adultério em João 8,3–4. Bastava um único episódio exposto para que toda a cidade rotulasse alguém como pecadora.

Outra hipótese é uma vida conjugal irregular, semelhante à da samaritana que tivera vários maridos e vivia com um homem que não era seu esposo (Jo 4,17–18). No judaísmo do século I, essa condição já bastava para tornar uma mulher socialmente marcada.

Também é possível que fosse conhecida por uma vida dissoluta, frequentando banquetes masculinos ou circulando em ambientes considerados impróprios para mulheres respeitáveis. Esse comportamento, descrito em Lucas 7,37, bastava para gerar má reputação, como ilustram outros textos bíblicos (2Rs 9,30).

Porém, a prostituição continua sendo uma hipótese bastante plausível. Os Evangelhos mencionam prostitutas como grupo social reconhecido (Mt 21,31). Nada impede que a mulher de Lucas 7 fosse uma delas; apenas não há afirmação textual nesse sentido.

Qual desses pecados públicos era o da mulher anônima mencionada no Evangelho de São Lucas? Nunca saberemos! Todas essas hipóteses são igualmente possíveis.

Maria de Betânia

Maria de Betânia não é apresentada nos Evangelhos como mulher de má vida, mas como discípula profundamente devota. Sua postura revela uma correção interior plena: ela escuta Jesus sentada aos Seus pés (Lc 10,39), crê firmemente n’Ele mesmo diante da morte do irmão (Jo 11,27) e oferece, por amor, um perfume caríssimo em gesto de entrega total (Jo 12,3). Em todas as passagens, Maria aparece como modelo de fé, contemplação e pureza de coração, nunca como pecadora pública ou mulher de reputação dúbia.

A origem da confusão entre as três personagens

A confusão entre a pecadora de Lucas 7, Maria de Betânia e Maria Madalena nasce de algumas passagens. Os Evangelhos descrevem episódios distintos, mas com detalhes tão semelhantes, e por vezes quase idênticos, que é possível supor tratar-se da mesma mulher. A falta de nomes explícitos em alguns relatos, a repetição de certos gestos raríssimos e a menção a personagens com o mesmo nome reforçaram essa tendência de unificação.

Abaixo estão os principais pontos que, desde cedo, levaram muitos a identificar essas três mulheres como sendo uma só.

1. As unções e o gesto singular dos cabelos

Em Lucas 7, a pecadora anônima entra na casa de Simão, o fariseu, leva um vaso de alabastro, derrama perfume sobre os pés de Jesus e os enxuga com os cabelos soltos (Lc 7,37–38.44).

Em João 12, Maria de Betânia repete exatamente a mesma sequência: entra no ambiente do banquete, unge os pés do Senhor com perfume muito caro e os enxuga com os próprios cabelos (Jo 12,3; cf. Mt 26,6–7; Mc 14,3).

Maria de Betânia:

Ofereceram-lhe aí um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tendo tomado uma libra de um perfume de nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo. (João 12,3)

A pecadora anônima:

Um fariseu convidou-o a comer com ele. Jesus entrou, pois, na casa do fariseu e reclinou-se à mesa. Apareceu então uma mulher da cidade, uma pecadora. Sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. E, ficando por detrás, aos pés dele, chorava; e com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, a enxugá-los com os cabelos… (Lucas 7,36-38)

Essas duas cenas compartilham todos os elementos decisivos:

  • um banquete doméstico;
  • uma mulher que entra inesperadamente;
  • um perfume caríssimo;
  • a unção dos pés;
  • e o gesto raríssimo de usar os cabelos como toalha.

Dessa forma, como a pecadora não tem nome mencionado textualmente, abriu a possibilidade, em algumas interpretações que analisaremos, de considerá-las a mesma pessoa. É uma hipótese pouco provável, mas não um hipótese absurda.

2. O vaso de alabastro e o perfume precioso

Em Lucas 7, a pecadora anônima entra na casa de Simão, o fariseu, carregando um vaso de alabastro cheio de perfume caro (Lc 7,37). Em Marcos 14, na cena da unção em Betânia, outra mulher, que Mateus e Marcos não nomeiam, mas que João identifica como Maria de Betânia, também quebra um vaso de alabastro com nardo puro e unge Jesus (Mc 14,3; cf. Mt 26,7).

Como apenas essas duas mulheres em toda a Bíblia usam um vaso de alabastro em um banquete para ungir Jesus, leitores antigos supuseram que se tratava da mesma pessoa. A coincidência é tão específica, objeto idêntico, contexto semelhante, gesto semelhante, que os relatos pareceram duplicações do mesmo episódio.

3. Banquetes na casa de um homem chamado “Simão”

Em Lucas 7, a pecadora entra na casa de Simão, o fariseu (Lc 7,36.40). Em Mateus 26 e Marcos 14, a unção de Betânia ocorre na casa de Simão, o leproso (Mt 26,6; Mc 14,3).

Temos, portanto, dois homens diferentes, em duas cidades diferentes, com a mesma combinação de nome e ocasião: um banquete para o qual Jesus é convidado, e uma mulher que entra trazendo perfume.

4. Como Maria Madalena entrou na história?

Após narrar a cena da pecadora em Lucas 7, o Evangelista imediatamente apresenta um grupo de mulheres que acompanhavam Jesus, entre elas Maria Madalena, “da qual haviam saído sete demônios” (Lc 8,2). A proximidade das duas passagens criou, na leitura antiga, uma ligação implícita:

  • primeiro aparece uma grande pecadora convertida,
  • logo depois, surge Maria Madalena, marcada por sua libertação espiritual.

Sem dizer qualquer ligação entre elas, Lucas colocou os textos lado a lado, e alguns concluíram que estava falando da mesma mulher. Pelo fato de Madalena ser a mulher mais proeminente na Paixão e na Ressurreição: ela aparece aos pés da cruz (Jo 19,25) e é a primeira a encontrar o Ressuscitado (Jo 20,1–18). Sua forte presença espiritual fez com que muitos a vissem como “a grande penitente”, e com isso sua figura acabou absorvendo tanto a pecadora de Lucas quanto a mulher de Betânia.

Em resumo, temos até o momento, na exegese bíblica, a possibilidade de algumas dessas personagens serem a mesma pessoa.

A identidade das personagens: mais um passo para entender se Maria Madalena era prostituta

Nesta seção, examinaremos como, ao longo da história, diferentes autores interpretaram a identidade dessas figuras femininas. A dúvida central é sempre a mesma: tratam-se de três mulheres distintas: a pecadora de Lucas, Maria de Betânia e Maria Madalena. Ou seriam, uma única personagem apresentada sob nomes e contextos diferentes?

Quando iniciamos uma pesquisa superficial sobre o tema, inclusive em chats de IA, repete-se muitas vezes a afirmação de que a ideia de Maria Madalena era prostituta “surgiu” com São Gregório Magno. De fato, Gregório identificou as três mulheres como uma só em suas homilias, como veremos. Porém, essa leitura já circulava antes dele e jamais foi objeto de consenso entre os especialistas em Escrituras.

Contudo, a questão é muito mais complexa. A identidade dessas personagens foi longamente debatida por teólogos, exegetas e historiadores, e não se reduz a uma tese criada por Gregório, mas a um processo interpretativo anterior e posterior a ele.

1. A posição que distingue as três mulheres

Segundo esta leitura, a pecadora anônima, Maria de Betânia e Maria Madalena são três personagens independentes.

Os defensores dessa distinção observam que o contexto narrativo de Lucas 7,37 descreve uma mulher conhecida publicamente como pecadora, enquanto Maria de Betânia aparece sempre em ambiente doméstico respeitado, recepcionando Jesus com Marta e Lázaro (Lc 10,38–42; Jo 11; Jo 12).

Além disso, Lucas 8,2, imediatamente após o episódio da pecadora, menciona “Maria, chamada Madalena”, “da qual tinham saído sete demônios”, sem estabelecer conexão entre ela e a mulher anterior, o que muitos consideram um indício de que se trata de figuras diferentes.

Outro ponto observado nessa linha é a diferença geográfica: Maria Madalena parece ligada à Galileia (Magdala), enquanto Maria de Betânia pertence à Judeia, o que sugeriria origens distintas. Também se nota que Jesus não conhece previamente a pecadora de Lucas (Lc 7,37–39), ao passo que a família de Betânia é amiga íntima do Senhor.

Autores dessa corrente reforçam que nomes diferentes, situações diferentes e locais diferentes indicariam personagens diferentes.

Autores que defenderam a distinção entre Maria Madalena e as demais personagens

  • Orígenes (c. 185–254) – In Matth. tom. XXXV (PG 13, col. 1721)
  • Teofilacto († após 1107), Eutímio Zigabeno († após 1118), Severo/Sérvio – Catena in Lucam VII (PG t. I, col. 775)
  • Jacques Lefèvre d’Étaples (c. 1455–1536) – De Maria Magdalena (1516–1518); De tribus et unica Magdalena (1519)
  • Jacques-Bénigne Bossuet (1627–1704) – Sur les trois Magdeleine (ed. Migne 1856, t. V, col. 1647)
    Alguns breviários franceses antigos (séc. XVII–XVIII)

2. A posição que admite apenas duas Marias

Uma segunda corrente considera que duas das figuras são a mesma pessoa, mas não todas. Nesta perspectiva, Maria Madalena seria a mesma mulher que Maria de Betânia, mas a pecadora de Lucas 7 permaneceria distinta.

A razão principal é que Lucas apresenta a pecadora como personagem isolada, enquanto a descrição espiritual, afetiva e devocional de Maria de Betânia guarda semelhanças com o retrato que os Evangelhos fazem de Maria Madalena no Calvário e na Ressurreição.

Dessa forma, alguns intérpretes viram continuidade de personalidade entre essas duas mulheres nomeadas, mas mantiveram separada a figura anônima de Lucas 7 devido à diferença de contexto e à ausência de nome.

Autores que defendem apenas duas Marias

  • Constituições Apostólicas (c. 350–380) – III, 6 (PG 1, col. 769)
  • São João Crisóstomo (c. 347–407) – Homilia 62 in Joannem 1 (PG 59, col. 342)
  • São Hilário de Poitiers (c. 310–367) – In Psalmum 129, 5 (PL 9, col. 748)
  • São Jerônimo (c. 347–420) – In Matth. IV, 26, 7 (PL 26, col. 191); Interpret. Origen. in Cant. Hom. I e II (PL 23, col. 1123, 1130)
  • J. A. Sepp (1861), Lecanu (1863), Pauvert (1867)
  • Muitos exegetas católicos e protestantes contemporâneos (séc. XIX)

3. A posição que defende apenas uma Maria

Em primeiro lugar, esta interpretação sustenta que a pecadora de Lucas 7, Maria de Betânia e Maria Madalena são, em última análise, a mesma pessoa. O motivo pelo qual, pensam dessa forma, segue dois elos principais. primeiramente, João 11,2 chama Maria, irmã de Marta, “aquela que ungiu o Senhor e lhe enxugou os pés com os cabelos”; por isso, muitos entenderam aqui uma referência a um episódio já conhecido, a unção narrada em Lucas 7. Assim, João estaria remetendo retroativamente à unção da pecadora. Uma vez aceito esse paralelismo, conclui-se que a pecadora anônima e Maria de Betânia são idênticas.

Em segundo lugar, liga-se então essa Maria (pecadora/Betânia) a Maria Madalena, apontando que a descrição do temperamento devoto, a conversão radical e a intensidade afetiva (cf. Lc 7,47; Lc 10,38–42; Jo 19–20) oferecem continuidade de caráter; ademais, a menção de que “a quem tinham saído sete demônios” (Lc 8,2) foi interpretada como compatível com um passado perturbado reconduzido ao amor penitente.

Por fim, os defensores desta leitura recorrem também a argumentos narrativos e tradutórios (por exemplo, a forma verbal empregada em Jo 11,2) para explicar por que João menciona a unção antes de narrá-la.

Porém, cumpre afirmar que a mera junção das três personagens, não leva a afirmação de que Maria Madalena era prostituta. Nem mesmo, necessariamente, a “pecadora” é associada de modo explicito a prostituição.

Autores que defendem apenas uma Maria

  • Clemente de Alexandria (c. 150–215) – Paedagogus II, 8 (PG 8, col. 430)
  • Tertuliano (c. 160–após 220) – De pudicitia XI (PL 2, col. 1001)
  • São Gregório Magno (c. 540–604) – In Ezech. I, 8, 2 (PL 76, col. 854); Hom. in Evang. II, 33, 1 (PL 76, col. 1239); Epist. lib. VII, 25 (PL 77, col. 877); Expos. in I Reg. IV, 3, 13 (PL 79, col. 243)
  • Autor do Sermo XXXV ad fratres in eremo (pseudo-agostiniano, séc. VI–VIII) – afirma que Maria a pecadora é a irmã de Marta e “apostola apostolorum” (PL 40, col. 1298)
  • São Bernardo de Claraval (1090–1153) – Serm. in Dom. VI post Pentec. 4; Serm. in Assumpt. B. M. V. 2; Serm. IV in Dedic. Eccles. 3; com leve hesitação em Serm. XIII in Cant. 6 (PL 183, col. 342, 422, 527, 831)
  • Liturgia e hinos medievais (séc. IX–XV): São Odão de Cluny († 942), Godescalco (séc. X), hino Collaudemus (séc. XIV–XV), oração de Francesco Petrarca (1304–1374), hinos atuais do Breviário Romano
  • John Fisher, bispo de Rochester (c. 1469–1535) – De unica Magdalena libri tres (1519)
  • Noël Béda († 1537) – Scholastica declaratio sententiae et ritus Ecclesiae de unica Magdalena (1519)
  • Faculdade de Teologia de Paris (Sorbonne) – decisão de 1521 (Duplessis d’Argentré, Collectio judiciorum, t. III, 1, p. VI)
  • Jean-Jacques Bolland SJ (1596–1665) – Acta Sanctorum, Julho t. V, p. 187
  • Faillon (1865), Lacordaire (1872), Curci (1874), Bougaud (1877), Fouard (1880), Fillion (1882), Didon (1891),
  • Ollivier (1895), Coleridge (1896), Chevallier (1891), Le Camus (1901), Il santo Vangelo di N. S. G. C. (Roma 1902)
  • Liturgia católica atual – ofício de 22 de julho (triplo testemunho evangélico)

Conclusão sobre essa posição

Em conclusões, podemos considerar o seguinte:

Em primeiro lugar, apesar do Papa São Gregório I defender essa posição no século VI, é uma anterior a ele. Inclusive é bastante antiga remontando ao século II, com Clemente de Alexandria.

Por fim, cumpre-se notar, que é uma posição defendida por autores ou instituições de grande conhecimento e consideração, como por exemplo, por Jean Bolland, Sourbonne e São João Fisher. Em suma, não é uma inovação de São Gregório Magno.

O papa Gregório I criou a ideia de que Maria Madalena era prostituta?

Agora encontramos efetivamente na explicação objetiva de um erro que segue sendo repetido. Vamos esclarecer de modo claro esta questão.

O Papa Gregório I (Magno) afirmou que Maria Madalena era Prostituta?

A alegação de Rodrigo Silva de que Gregório Magno criou a ideia de Maria Madalena era prostituta

OBS: após escrevermos esse react abaixo, descobrimos que o Rodrigo Silva escreveu um livro sobre Maria Madalena, clique no link e consulte a crítica específica ao livro, que aliás, é muito mais sério do que pensamos abaixo. A argumentação abaixo é totalmente válida e atual.

Rodrigo Silva é um protestante adventista do sétimo dia, arqueólogo bíblico e figura extremamente ativa nas redes sociais. No meio evangélico, goza de grande prestígio, tanto por suas apresentações sobre arqueologia quanto por suas opiniões sobre a Bíblia. No entanto, esse reconhecimento contrasta com um problema recorrente: ele faz, com frequência, afirmações historicamente falsas, sem apresentar documentação, fontes antigas ou sustentação séria. São declarações proferidas com tom de autoridade, mas desprovidas de base documental, algo que já se observou em diversas ocasiões.

Diante disso, surge uma dúvida inevitável. Estaria um arqueólogo e professor universitário realmente alheio a informações básicas, amplamente documentadas e acessíveis a qualquer pesquisador? Trata-se de desconhecimento de fontes primárias que ele deveria conhecer? Ou, alternativamente, seria uma escolha deliberada, moldada por sua própria ideologia adventista, visando distorcer elementos centrais da tradição católica? Só Deus sabe, mas a recorrência dos erros não pode ser ignorada.

O mesmo padrão se repete na questão se Maria Madalena era prostituta. Em sua participação no programa Inteligência Ltda, no YouTube, Rodrigo Silva afirmou (novamente sem citar documentos, sem recorrer aos Padres da Igreja e sem apoio em exegese textual ) que “a ideia de que Maria Madalena era prostituta foi criada pelo papa Gregório Magno”. A seguir, transcrevemos literalmente essa declaração.

“Maria Madalena não era prostituta. Quem criou essa ideia de Maria Madalena prostituta foi o Papa Gregório Magno, que, no ano 591 depois de Cristo”

Disponibilizamos o vídeo abaixo que dando play, será iniciado exatamente neste trecho:

YouTube video

Outras alegações sem fundamento de Rodrigo Silva

Ele prossegue com a seguinte alegação:

“Alguns pensam que uma das razões pelas quais ele [Gregorio I] criou essa figura de Maria Madalena como prostituta foi porque o nome dela estava ganhando muito poder na Igreja, e aí o patriarcado, agora no sentido mais feminino e pejorativo da palavra, se sentiu ameaçado.”

Aqui não temos apenas um erro histórico. Temos retórica enganosa.

Primeiramente, a fórmula “alguns pensam” é um recurso vazio, sem fundamento. Com efeito, em historiografia, essa expressão não tem valor nenhum se não vier acompanhada de nomes, datas, obras, citações e documentos primários. Caso contrário, “alguns pensam” significa, literalmente, que ninguém verificável pensa. Trata-se, portanto, de uma estratégia para dar aparência de consenso a uma opinião pessoal.

Além disso, se um arqueólogo ou historiador pretende sustentar uma tese, deve dizer: quem pensa, onde escreveu, em qual obra, baseado em qual documento. Rodrigo Silva não fornece absolutamente nada. Ao contrário, ele simplesmente inventa um fato.

Em segundo lugar, mesmo se fosse verdade, e não é, sua premissa é absurda. Afinal, onde está o documento que mostra que “o nome de Maria Madalena estava ganhando poder na Igreja”? Em que século, exatamente? Qual concílio? Em qual homilia de Gregório? Ou ainda, em qual texto patrístico? Não existe um único registro que sustente essa hipótese. Logo, ela não repousa sobre fontes, mas sobre imaginação.

Em terceiro lugar, a conclusão é completamente ilógica. Mesmo que o nome de Maria Madalena estivesse crescendo em devoção, hipótese fictícia, por que isso ameaçaria algum “patriarcado”? De modo algum fica claro que mecanismo institucional faria um papa do século VI sentir-se “ameaçado” por devoção a uma santa. Assim, qual seria o nexo causal? Simplesmente não há. A narrativa não tem estrutura: é um enredo ideológico, não uma análise histórica.

Conclusão sobre as alegações de Rodrigo Silva

Em suma, podemos afirmar sem risco incorrer em erro: que todas as afirmações do Rodrigo Silva mencionadas são falsas, sem nenhum respaldo documental. Não é verdade que São Gregório I criou a ideia de que Maria Madalena era prostituta. Não há provas que o nome de Maria estava ganhando muito poder na Igreja. Com também nada pode sustentar que o patriarcado se sentiu ameaçado.

Porém, além da falsidade histórica, há algo muito mais grave nessa afirmação — mesmo quando feita em tom leve e descontraído. Ela constitui um ataque direto ao caráter moral de São Gregório Magno, porque implica três acusações gravíssimas:

  • que o papa mentiu conscientemente, atribuindo a Maria Madalena algo que ele próprio sabia não estar na Escritura;
  • que distorceu deliberadamente a exegese bíblica por motivos políticos;
  • que usou o púlpito papal para caluniar uma discípula de Cristo e difamar uma santa, apenas para proteger uma pretensa estrutura de poder masculino que se sentiria “ameaçada”.

Em resumo, acusa um santo e Doutor da Igreja de falsidade, manipulação e maquiavelismo. Parece-nos um falso testemunho público contra um homem que a Igreja venera há catorze séculos como modelo de santidade, retidão, cultura e inteligência.

O caso de Maria Madalena ser prostituta segundo o próprio Papa Gregório Magno

Primeiramente, e uma questão metodológica fundamental compreender o que um autor pensa sobre determinado tema a partir de sua própria obra ou, no caso de uma autoridade, dos documentos por ele produzidos no exercício do cargo. Por outro lado, no caso do papa Gregório I, a identificação de Maria Madalena jamais seria objeto de decreto, não só porque o assunto não o exigia, mas também porque esse tipo de questão exegética nunca foi tratado por meio de decretos papais.

Contudo, todas as homilias, cartas, tratados e demais obras autênticas de São Gregório Magno que nos chegaram encontram-se reunidas na Patrologia Latina organizada por Jacques-Paul Migne, mais precisamente nos tomos 75, 76, 77, 78 e 79 dessa monumental coleção. Estamos falando de aproximadamente 3.600 páginas inteiramente dedicadas aos textos originais do pontífice, reproduzidos a partir das melhores edições beneditinas do século XVII.

Portanto, se existisse alguma passagem em que o próprio Gregório Magno afirmasse expressamente que Maria Madalena tivesse sido prostituta, ela necessariamente estaria nesses cinco volumes — e só poderia estar ali, pois nenhuma outra fonte primária contemporânea ou posterior acrescenta documentos autênticos fora desse corpus. Como gerações de estudiosos já verificaram exaustivamente essas milhares de colunas e nada encontraram nesse sentido, fica demonstrado que tal afirmação não provém do papa Gregório I.

Menção ou referência às prostitutas na obra do Papa São Gregório Magno

Primeiramente, pesquisamos exaustivamente nesses cinco tomos da Patrologia Latina de Migne (PL 75–79) todas as ocorrências em que São Gregório emprega o termo meretrix e seus derivados (meretricis, meretrice, meretricium, meretricum, meretriculas, meretriculae etc.), ou seja, todas as palavras que compartilham o mesmo radical latino e que, no uso clássico ou na patrística, podem designar prostituta ou estar associadas à prostituição.

Tomo 75 do Migne

No tomo 75 encontramos apenas duas menções ao radical meretrix. Ambas pertencem à Vida de São Gregório Magno escrita por João Diácono (séc. IX), não a textos do próprio papa. A primeira ocorrência narra o episódio de uma matrona que se entregara à prostituição (S. Gregorii Magni Vita, auctore Joanne Diacono, Liber IV, cap. 95 – PL 75, col. 238). O segundo caso refere-se exatamente ao mesmo episódio de corrupção pela prostituição (col. 240). Nenhuma das duas passagens menciona personagens bíblicas, tampouco Maria Madalena.

Tomo 76 do Migne

Por outro lado, no tomo 76 registra-se apenas uma ocorrência (Homilia X in Ezechielem, lib. I, § 15 – PL 76, col. 892): Gregório limita-se a citar literalmente a Escritura: “Tornou-se para ti a fronte de prostituta; não quiseste corar de vergonha” (Jr 3,3). Ou seja, é um versículo do livro de Jeremias. Não há qualquer referência a personagens do Novo Testamento, muito menos a Maria Madalena.

Tomo 77 do Migne

Em continuação, o tomo 77 apresenta duas ocorrências, ambas na Regula Pastoralis (livro III, cap. 7 – col. 57; e cap. 28 – col. 104). Em ambos os casos trata-se exatamente da mesma citação literal de Jeremias 3,3: «Tornou-se para ti o rosto de uma prostituta; não quiseste corar de vergonha», aplicada ao povo judeu infiel ou à alma impudente que não se envergonha do pecado. Em nenhum dos dois contextos há qualquer referência a personagens do Novo Testamento ou a Maria Madalena

Tomo 78 do Migne

No tomo 78, não aparece nenhuma ocorrência dos termos meretrix, meretricium ou derivados, tampouco qualquer referência à prostituição ou a prostitutas.

Tomo 79 do Migne

No tomo 79, aparecem seis ocorrências do radical meretrix. Todas elas, porém, são de natureza alegórica ou exegética.

  • Três vezes o termo é usado em sentido metafórico para designar os desejos mundanos ou a concupiscência (Liber II, cap. 5, n. 112 – col. 339; Liber VI, cap. 7 – col. 411; Liber VI, cap. 13 – col. 416).
  • Uma vez é a citação já conhecida de Jr 3,3 («Frons mulieris meretricis facta est tibi…») aplicada à alma impudente e sem vergonha (In Psalmum II poenitentialem, cap. 10 – col. 558).
  • No apêndice, há uma referência às duas meretrices que se apresentaram diante de Salomão (1Rs 3,16-28), usada como exemplo de tentação que segue a graça recebida.
  • Por fim, outra citação alegórica no comentário de Paterius ao Apocalipse 17,15, onde as «águas onde está sentada a meretrix» são interpretadas como os povos.

Conclusão sobre a afirmação gratuita que o Papa Gregório Magno criou a ideia de Maria Madalena ser Prostituta

Em conclusão, na vasta obra de São Gregório Magno a prostituição propriamente dita não é tema relevante, considerando o volume total da obra e o reduzidíssimo número de ocorrências. Pode-se afirmar com segurança que, entre as suas preocupações doutrinais e pastorais, esse assunto não tinha qualquer prioridade. Portanto, quando o termo aparece, na quase totalidade dos casos refere-se à infidelidade do povo judeu (citação de Jr 3,3) e funciona apenas como elemento ilustrativo ou complementar de outro tema, nunca como foco da exposição.

Por outro lado, não existe uma única passagem que relacione o termo meretrix ou a ideia de prostituição às três personagens femininas do Evangelho: a pecadora anônima de Lc 7, Maria de Betânia e Maria Madalena.

Da mesma forma, também não há qualquer citação pejorativa que apresente o pecado da prostituição como o mais deplorável ou mais grave, como de fato o viam muitos judeus do tempo de Nosso Senhor. Pelo contrário, na lógica cristã da salvação (e não na ótica judaica), trata-se de um pecado grave, mas como tantos outros: plenamente enquadrado na misericórdia, na graça e no perdão que Cristo demonstrou inúmeras vezes. Não é, portanto, um pecado de destaque especial.

Assim, tanto a afirmação de que “Gregório Magno criou a ideia de que Maria Madalena era prostituta” quanto a suposta intenção de «proteger o patriarcado» não têm o menor fundamento nos textos do papa. Trata-se de construções que só existem no terreno da imaginação e que, como de costume, não perdem a oportunidade de denegrir a imagem da Igreja Católica e do papado.

A Homilia do Papa Gregório Magno sobre a Pecadora Anônima

Como pudemos verificar ao longo de toda a obra de São Gregório Magno, não existe absolutamente nenhuma afirmação de que o papa considerasse Maria Madalena prostituta. Contudo, existe um único sermão — e apenas um — em que ele trata diretamente da pecadora anônima de Lucas 7, incluída no Livro II das quarenta Homilias sobre os Evangelhos (XL Homiliarum in Evangelia, liber II, homilia 33).

Na edição da Patrologia Latina de Migne (Paris, 1857), esta homilia ocupa integralmente as colunas 1238 a 1246 do tomo 76. Foi proferida pelo próprio Gregório Magno no dia 14 de setembro de 591, sexta-feira das Quatro Têmporas de setembro, na basílica de São Clemente, em Roma, tendo como perícope evangélica exatamente Lc 7,36-50, ou seja, a passagem da mulher pecadora que unge os pés de Jesus.

É, portanto, a única homilia em toda a obra gregoriana dedicada especificamente a esse episódio. Quando Rodrigo Silva afirma, com tom categórico, que “foi o papa Gregório Magno, no ano 591, quem criou a ideia de que Maria Madalena era prostituta”, não resta a menor dúvida de que ele está se referindo (mesmo sem citar) exatamente a esta Homilia 33 de 14 de setembro de 591. Não existe nenhum outro texto de Gregório daquele ano, nem de qualquer outro, que trate do assunto.

Chegamos, assim, ao documento-fonte que o próprio acusador aponta, ainda que de forma vaga e sem jamais apresentar a citação.

Dessa forma, cumprimos mais uma vez o dever elementar de trazer a verdade documental aos fatos e de confrontar as afirmações com as fontes primárias. Fica a legítima dúvida: teria Rodrigo Silva realmente lido a Homilia 33 antes de fazer afirmações tão graves e tão repetidas em programas de grande audiência?

Uma homília teria poder de declarar Maria Madalena como prostituta?

Primeiramente, mesmo que São Gregório Magno tivesse dito expressamente que Maria Madalena fora prostituta (o que, como já demonstramos exaustivamente, ele nunca fez), uma simples homilia nunca teria o poder de declarar ou impor tal coisa como verdade oficial da Igreja.

Em segundo lugar, na disciplina católica, a homilia é um gênero litúrgico-pastoral: ela explica a Palavra de Deus proclamada naquele dia e procura alimentar a fé e a vida moral dos fiéis. Não é ato de Magistério, não cria doutrina, não define interpretação autêntica da Escritura e não obriga ninguém a aceitá-la como definitiva.

Portanto, ainda que Gregório tivesse feito tal afirmação numa homilia, ela continuaria sendo apenas a sua leitura exegética pessoal, sem caráter obrigatório nem capacidade de “criar” ou “impor” uma nova identidade para Maria Madalena. Muito menos justificaria, catorze séculos depois, acusar o papa de ter inventado ou decretado algo que, pela própria natureza do gênero próprio de homilias, ele nunca poderia ter feito.

O caráter geral da homília de São Gregório

A Homilia 33 é uma verdadeira joia de sabedoria e unção espiritual. Nela, São Gregório eleva-se a uma altura sublime ao contemplar o arrependimento daquela mulher sem nome do Evangelho de Lucas. Exalta o amor ardente que brota de um coração verdadeiramente contrito, a beleza das lágrimas que lavam os pés do Salvador, o perfume precioso derramado em sinal de entrega total e, sobretudo, a imensa misericórdia de Cristo que converte a pecadora em símbolo do perdão perfeito. Longe de qualquer acusação ou diminuição, Gregório celebra-a como modelo radioso de conversão autêntica. Ele diz logo no início que quando pensa nesse arrependimento:

“… apetece-me mais chorar do que dizer seja o que for. Pois de quem é que as lágrimas desta pecadora não amolecem o coração, mesmo que seja de pedra, para seguir o seu exemplo de penitência? (Cap. 1)

Por fim, este nível de espiritualidade já indicam que não há espaço intencional para imputar que Maria Madalena fosse prostituta prejudicar a sua imagem.

A pecadora como exemplo perfeito de arrependimento

Por outro lado, depois de exaltar a beleza do arrependimento da mulher e a imensidão da misericórdia divina, São Gregório volta-se para o fariseu Simão e expõe, com clareza implacável, a sua arrogância interior. Lembra o pensamento que aquele homem alimentava em silêncio: «Se este fosse profeta, bem saberia quem é e de que qualidade é a mulher que lhe toca, pois é pecadora» (Lc 7,39).

Na Homilia 33, o papa toma decididamente a defesa da pecadora e do seu amor contrito contra a dureza do fariseu:

Eis o fariseu: verdadeiramente orgulhoso no seu íntimo e falsamente justo. Censura a doente pela sua doença e o médico pelo seu remédio — ele próprio doente da ferida do orgulho, sem o saber. Aquela chorava o que tinha feito; o fariseu, porém, inchado de uma justiça falsa, aumentava ainda mais a violência da sua enfermidade. (Cap. 3)

Perguntamos, com toda a serenidade: onde, nestas palavras, se encontra a menor sombra de intenção espúria? Em que linha se pode ler uma suposta defesa do patriarcado ou o propósito de denegrir a mulher? Pelo contrário, São Gregório coloca a pecadora convertida como exemplo luminoso e humilha a presunção do varão que se julgava justo.

Esta página é, portanto, prova incontestável de que as acusações de Rodrigo Silva são radicalmente falsas na sua essência. Longe de rebaixar a mulher, o santo papa exalta o seu arrependimento e condena, com vigor profético, a arrogância daquele que se acreditava superior.

A junção da identidade não diz nada sobre Maria Madalena ser prostituta

Como já vimos, São Gregório Magno é, de fato, um dos exegetas que identifica a pecadora anônima, Maria de Betânia e Maria Madalena como a mesma pessoa. O trecho exato dessa interpretação é claríssimo:

“Aquela que Lucas chama mulher pecadora, João chama Maria; cremos (credimus)  que seja essa mesma Maria da qual Marcos testemunha terem sido expulsos sete demônios.” (cap. 1 – PL 76, col. 1239)

Repare bem: ele emprega o verbo credimus (cremos), não “definimus”, “decernimus” ou “praecipimus”. Ou seja, apresenta a identificação como uma convicção pessoal, não como imposição dogmática ou obrigatória. Ele sabia perfeitamente que outros autores pensavam de modo diferente e, longe de os condenar, limita-se a expor a sua própria leitura. Trata-se, portanto, de uma opinião exegética respeitável, não de um ato de magistério da Igreja.

E aqui está o ponto decisivo: mesmo aceitando a junção das três figuras, São Gregório não afirma, nem sugere que a pecadora anônima ou Maria Madalena (para ele a mesma pessoa), tenha sido prostituta. A identificação de ambas existe; porém a acusação de prostituição, não.

Portanto, a união das personagens não implica nem autoriza a ideia de prostituição. Quem acrescenta esse elemento está lendo algo que simplesmente não está no texto de São Gregório Magno, nem em qualquer outra manifestação de sua autoria.

Quais seriam os pecados de Maria Madalena?

Os Evangelhos afirmam com toda a clareza que ela era aquela «da qual tinham saído sete demônios» (Lc 8,2) e da qual o Senhor «expulsara sete demônios» (Mc 16,9). Por que precisamente sete? Por que não um, três ou doze? São Gregório detém-se nessa pergunta e oferece uma resposta cheia de profundidade simbólica:

“E o que significam os sete demônios, senão todos os vícios? Pois, já que todo o tempo é compreendido nos sete dias, com razão a totalidade é figurada pelo número sete. Assim, Maria teve sete demônios, porque estava cheia de todos os vícios. (Cap. 1, PL, col. 1239)”

O número sete, na linguagem bíblica, indica totalidade. Assim, «sete demônios» significa que ela estava dominada por todos os tipos de vício, não necessariamente por um pecado concreto ou predominante. Gregório usa aqui uma figura retórica clássica para exprimir a plenitude do mal de que Cristo a libertou.

Mesmo que alguém queira incluir a luxúria entre esses vícios (o que é legítimo, pois a luxúria é um dos sete pecados capitais), isso ainda não equivale a prostituição. A luxúria abrange toda a desordem da concupiscência da carne: pensamentos impuros, adultério, fornicação, masturbação, etc. A prostituição, por sua vez, é apenas uma forma específica de luxúria que envolve comércio sexual. Gregório não especifica nenhum desses pecados, muito menos o comércio do corpo.

Portanto, dizer que Maria Madalena «tinha todos os vícios» ou que «estava cheia de vícios» não autoriza, nem de longe, a conclusão de que tenha sido prostituta. É um salto interpretativo que o próprio texto de São Gregório não dá e nunca deu.

Desenvolvimento posterior da ideia de que Maria Madalena era prostituta

A ideia de que Maria Madalena teria sido prostituta parece surgiu depois, de forma lenta, fragmentária e essencialmente extratextual.

Representação de Maria Madalena

Porém, foi sobretudo na arte e no teatro medieval tardio (séculos XIII–XV) que o estereótipo ganhou corpo: cabelos longos e soltos, veste rasgada, postura languida junto ao vaso de perfume ou ao crânio passaram a simbolizar a “mulher que muito amara”.

Sobre tudo na era moderna, justamente quando a Igreja perde sua força cultura, pintores renascentistas e barrocos (Donatello, Tiziano, Caravaggio, Rubens, Georges de La Tour) reforçaram a leitura sensual da penitente, muitas vezes retratando-a seminua, em êxtase que mais parecem sexuais, ou explicitamente com os seios de fora (com por exemplo em Ticiano no século XVI).

No Romantismo e na ópera do século XIX a imagem cristalizou-se de vez na cultura ocidental, sendo depois exportada pelo cinema e pela literatura popular do século XX. Assim, o que começou como especulação devocional esparsa e geograficamente localizada acabou, ao longo de quase mil anos, sendo projetado retroativamente sobre o papa do século VI.

Em suma, rastrear com precisão cada etapa desse processo exigiria estudo monográfico próprio; o certo é que o salto da “pecadora convertida” para “ex-prostituta” aconteceu muito depois de Gregório e nunca teve origem nos seus textos.

Conclusão sobre Maria Madalena ter sido prostituta

À luz das fontes primárias, da exegese histórica e da análise rigorosa dos textos de São Gregório Magno, torna-se absolutamente claro que a acusação de que ele teria “inventado” a ideia de uma Maria Madalena prostituta é insustentável. Não há no papa nenhuma linha que atribua a Madalena essa condição, nem em suas homilias, nem em suas cartas, nem em qualquer documento autêntico preservado. O que existe — e apenas isso — é a identificação tradicional entre três figuras femininas dos Evangelhos, leitura presente séculos antes dele e jamais associada a qualquer afirmação de prostituição.

Em contraste, a difusão moderna desse mito anticatólico nasce não da pesquisa histórica, mas de repetições descuidadas, de suposições ideológicas e de narrativas que preferem desacreditar a Igreja a confrontar a documentação. Atribuir falsamente a Gregório uma intenção machista ou manipuladora é fazer-lhe grave injustiça: o homem que exaltou a pecadora anônima como modelo perfeito de contrição jamais poderia ser acusado de distorcer a figura da discípula que primeiro viu o Ressuscitado.

Por fim, resta afirmar sem hesitação: Maria Madalena não é prostituta; Gregório Magno nunca disse que fosse; e a tradição católica jamais a definiu assim. O que permanece, acima de tudo, é o retrato evangélico: a discípula fiel, a mulher libertada por Cristo, a testemunha privilegiada da Ressurreição e, como a liturgia proclama, a apostola apostolorum. Tudo o mais não passa de lenda recente — repetida muitas vezes, mas demolida com uma única coisa: a verdade.

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