Livro Maria Madalena de Rodrigo Silva: A citação que não existe

Livro Maria Madalena de Rodrigo Silva

O livro Maria Madalena, de Rodrigo Silva, apresenta-se como a “história verdadeira” dessa figura bíblica. Sua enorme popularidade nas redes sociais, especialmente entre segmentos protestantes, em particular os adventistas (provavelmente a própria denominação de Rodrigo Silva), somada aos títulos acadêmicos do autor, professor universitário e reconhecido como autoridade em arqueologia bíblica, leva muitos leitores a supor que o texto se apoia em fontes sólidas e precisas.

Mais grave do que isso: o erro não é apenas uma citação imprecisa ou uma tradução mal feita, é algo muito pior. Trata-se de uma afirmação inexistente, atribuída ao Papa Gregório I (Gregório Magno).

Imagine, leitor, que você diga algo e alguém acrescente uma frase que você jamais pronunciou, mas a apresente como se fosse sua. Pois é! É exatamente isso que o Rodrigo Silva fez em relação ao papa Gregório Magno.

Infelizmente, não é a primeira vez na história do protestantismo que se recorre a distorções ou falsificações históricas para atacar a Igreja Católica e o papado. Até que ponto o ressentimento histórico contra o papado pode justificar uma distorção tão grave dos fatos? Do ponto vista católico, nos sentimos na obrigação de defender a realidade dos fatos de maneira documental sobre Gregório I (Magno).

Qual é o erro grosseiro do livro Maria Madalena: A verdadeira História do autor Rodrigo Silva?

O contexto aqui é o da falsa atribuição de prostituição a Maria Madalena. Demonstramos detalhadamente, com ampla fundamentação documental, em nosso artigo Maria Madalena era Prostituta?, onde também respondemos à questão e refutamos de modo mais abrangente as afirmações de Rodrigo Silva. Neste ponto específico, porém, interessa apenas destacar a inclusão de uma fala atribuída ao Papa Gregório Magno, que nunca foi dita pelo pontífice.

Rodrigo Silva tenta atribuir ao papa Gregório I (Magno) a responsabilidade por ter colocado em circulação a ideia de que Maria Madalena era prostituta, supostamente em uma homilia proferida no ano de 591.

A apresentação do livro

Vejamos o texto literal do autor. Na “Apresentação” do livro (Editora Planeta do Brasil, 2024) ele declara:

“em 591 d.C., o Papa Gregório I tentou diminuir a força de seu misticismo, criando outra imagem ainda mais mitológica: a de Maria prostituta e adúltera penitente.

Capítulo 2 do livro

Mais adiante, no capítulo 2, seção: “Nem esposa, nem prostituta”:

“Mas, como já comentamos, nem só de casamentos vive a especulação em torno de Maria Madalena. Em outro espectro do debate está sua alegada condição de prostituta. Ao que tudo indica, foi o papa Gregório Magno que, no ano 591, fez uma homilia na basílica de São Clemente em Roma, dizendo:”

“Aquela a quem o evangelista Lucas chama de mulher pecadora é a Maria [Madalena] da qual são expulsos os sete demônios. E o que significam esses sete demônios senão todos os vícios? Está claro, irmãos, que aquela mulher previamente usou o unguento para perfumar sua carne em
atos libidinosos. 5

Para sustentar essa afirmação atribuída a Gregório Magno, o autor chega a indicar a suposta fonte de onde teria extraído tais palavras do papa:

GREGORIUS MAGNUS. Homilia 33. Homiliarum in Evangelia. Paris: J. P. Migne (1844–1864). Disponível em: https://la.wikisource.org/wiki/Homiliarum_in_Evangelia/xxx. Acesso em: 19 mar. 2023.

Para uma pessoa leiga, essa referência em latim pode soar como uma prova irrefutável de que o papa realmente disse o que o autor lhe atribui. Contudo, do ponto de vista estritamente técnico, trata-se de uma negligência importante, e ainda mais significativa por vir de alguém que se apresenta como pesquisador:

  • Em primeiro lugar, ele não consultou a publicação original de J. P. Migne, mas apenas uma página da internet;
  • As obras de Gregório Magno estão distribuídas entre os volumes 75 e 79 da Patrologia Latina, que totaliza 221 volumes, ainda assim, o autor não indica a qual volume se refere;
  • Na prática, ele não consultou os volumes correspondentes, em especial a Homilia 33, situada nas colunas 1238 a 1246 do tomo 76;
  • Embora a identificação da Homilia 33 esteja correta, o link fornecido está errado: termina em “XXX”, ou seja, remete à Homilia 30, que nada tem a ver com o tema tratado.

Por fim, somente essas fragilidades apontadas, já revelam a completa inconsistência da afirmação de que o “o Papa Gregório I tentou diminuir a força de seu misticismo, criando outra imagem ainda mais mitológica: a de Maria prostituta e adúltera penitente.”

A deturpação histórico através de citação incluído no livro Maria Madalena de Rodrigo Silva

Em resumo, segundo Rodrigo Silva, quem teria atribuído a prostituição a Maria Madalena foi o papa Gregório Magno. Afinal, sempre segundo ele, o próprio papa teria dito isso textualmente, conforme a citação apresentada em seu livro.

Porém, o papa Gregório I nunca disse tal coisa:

“Está claro, irmãos, que aquela mulher previamente usou o unguento para perfumar sua carne em atos libidinosos.”

Essa frase é pura inserção que não existe nas palavras de Gregório Magno. E isso é grave: o autor acrescenta uma afirmação que não consta na homilia de Gregório — aliás, não aparece em parte alguma de toda a sua obra.

Se essa frase realmente aparecia na página da internet em latim que ele consultou, então estamos diante de um erro grosseiro, simplesmente reproduzido pelo autor. E é ainda mais grave porque não se trata de uma citação qualquer, mas de uma atribuição de origem para a ideia de que Maria Madalena teria sido prostituta. Ou seja, o núcleo de sua argumentação repousa sobre uma frase que não existe nas palavras de Gregório Magno.

Em conclusão, sua tese de que o papa criou essa ideia, apoia-se uma afirmação inexistente. Mas, mesmo assim, nosso autor, continua proferindo essa tese brilhante nas redes sociais.

Prova de que Rodrigo Silva no livro Maria Madalena: Sua Verdadeira História, citou algo não dito pelo Papa

Lembre-se, leitor, de que Rodrigo Silva utilizou um link da internet para atribuir a São Gregório Magno, para nós, um grande Santo da Igreja, a ideia de que Maria Madalena teria se dedicado à prostituição antes de sua conversão a Nosso Senhor Jesus Cristo. Já explicamos em artigo específico, citado acima, que mesmo se isso fosse verdadeiro, em nada diminuiria a realidade de sua sincera conversão. Para os católicos, ela é Santa Maria Madalena.

Chegamos agora ao ponto em que é preciso demonstrar que a citação apresentada pelo arqueólogo Rodrigo Silva foi incluída indevidamente. Por ora, cumpre mostrar que se trata, de fato, de interpolação, isto é, sem sentido amplo a atribuição a um documento histórico de uma frase que não existe no original.

Como o leitor perceberá logo adiante, não estamos diante de uma má tradução, mas da inclusão de uma frase inexistente no pronunciamento de Gregório Magno. Em outras palavras, trata-se de uma frase de algum modo inventada. A origem exata dessa frase adicional permanece desconhecida, pois não foi localizada em nenhuma edição impressa ou digital anterior ao livro.

A fonte não mencionada no livro Maria Madalena de Rodrigo Silva

Já demonstramos que ele consultou a internet, e não a publicação original. A edição autêntica da homilia de Gregório Magno está na coleção Migne; contudo, embora cite essa obra, o autor não indica volume nem colunas (como se fosse páginas), o que, somado ao uso de um link de internet, é um forte sinal de que provavelmente nem chegou a consultar a fonte primária.

Faremos isso agora para demonstrar a que esta fala de Gregório Magno, não foi proferida pelo Papa. Não é que ele deixe de apresentar “fontes” para sua afirmação.

Qual fonte confiável sobre o que disse Gregório Magno sobre Maria Madalena?

Qualquer pesquisador sério que deseje saber exatamente o que disseram os Padres e Doutores da Igreja precisa recorrer à coleção Migne, uma obra verdadeiramente monumental. Aliás, Migne era padre, e sua contribuição à Patrística é incontornável. Todo especialista na área, e Gregório Magno é um dos grandes autores patrísticos, precisa consultar essa coleção, que reúne textos quase sempre no original, fruto de um esforço hercúleo para tornar acessíveis documentos de cerca de dois mil anos.

O que faremos agora é justamente apresentar os textos originais e demonstrar que a citação usada por Rodrigo Silva é uma não consta no discurso de Gregório Magno.

Vamos agora aonde o livro Maria Madalena, de Rodrigo Silva, não foi!

E para onde iremos? Para as fontes publicadas e confiáveis que permitem saber o que Gregório Magno realmente disse, sem a inclusões inexistentes citada por Rodrigo Silva. Aqui está a obra de Gregório Magno papa.

Para deixar ainda mais claro: Migne não é uma obra sobre os Padres da Igreja, mas a própria coleção dos escritos deles.

O próprio Gregório Magno depõe contra o livro Maria Madalena de Rodrigo Silva

Abaixo reproduzimos a parte citada pelo Rodrigo Silva referente a homilia de Gregório Magno contida na coleção do Migne, PL, Tomo 76.

Migne tomo 76 contra o livro Maria Madalena e Rodrigo Silva

O texto original de Gregório Magno depõe contra o livro Maria Madalena de Rodrigo Silva

A seguir, apresentamos a transcrição literal do trecho completo do capítulo 1 em que Rodrigo Silva cita Gregório Magno, conforme aparece em Migne, PL 76, col. 1239–1240.

Transcrição

“Cogitanti mihi de Mariae poenitentia flere magis libet quam aliquid dicere. Cujus enim vel saxum pectus hujus peccatricis lacrymae ad exemplum poenitendi non emolliant? Consideravit namque quid fecit, et noluit moderari quid faceret. Super convivantes ingressa est, non jussa venit, inter epulas lacrymas obtulit. Discite quo dolore ardet, quae flere et inter epulas non erubescit. Hanc vero quam Lucas peccatricem mulierem vocat, Joannes Mariam nominat, illam esse Mariam credimus de qua Marcus septem daemonia ejecta fuisse testatur. Et quid per septem daemonia, nisi universa vitia designantur? Quia enim septem diebus omne tempus comprehenditur, recte septenario numero universitas figuratur. Septem ergo daemonia Maria habuit, quae universis vitiis plena fuit. Sed ecce quia turpitudinis suae maculas aspexit, lavanda ad fontem misericordiae cucurrit, convivantes non erubuit. Nam quia semetipsam graviter erubescebat intus, nihil esse credidit quod verecundaretur foris. Quid ergo miramur, fratres, Mariam venientem, cum Dominum suscipientem? Suscipientem dicam, an trahentem? Dicam melius, trahentem et suscipientem, quia nimirum ipse eam per misericordiam traxit intus, qui per mansuetudinem suscepit foris. Sed jam textum sancti Evangelii percurrentes, ipsum quoque ordinem quo venerit sanando, videamus.”

Tradução

Ao refletir sobre o arrependimento de Maria, apraz-me mais chorar do que dizer algo. Pois de quem as lágrimas desta mulher pecadora não amoleceriam até mesmo um coração de pedra para exemplo de penitência? Com efeito, considerou o que fizera e não quis moderar o que faria. Entrou entre os convivas, veio sem ser chamada, ofereceu lágrimas no meio do banquete. Aprendei com que dor ela arde, aquela que não se envergonha de chorar mesmo entre os convivas. Ora, esta que Lucas chama mulher pecadora, João chama Maria; cremos que é a mesma Maria da qual, segundo Marcos, foram expulsos sete demônios. E o que significam os sete demônios senão todos os vícios? Porque, como em sete dias se compreende todo o tempo, com razão o número sete figura a totalidade. Maria teve, pois, sete demônios, porque estava cheia de todos os vícios. Mas eis que, tendo contemplado as manchas da sua torpeza, correu para ser lavada à fonte da misericórdia, não se envergonhou dos convivas. Pois, porque muito se envergonhava de si mesma interiormente, julgou que nada havia de que devesse envergonhar-se exteriormente. Que admiramos, portanto, irmãos, que Maria tenha vindo, se o Senhor a recebeu? Direi que a recebeu, ou que a atraiu? Direi melhor: que a atraiu e a recebeu, porque certamente foi Ele quem, pela misericórdia, a atraiu interiormente e, pela mansidão, a recebeu exteriormente. Mas, percorrendo já o texto do santo Evangelho, vejamos também a própria ordem em que veio para ser curada.

Existem outras possibilidades de tradução, é verdade, mas observe até onde o papa Gregório I efetivamente fala: “E o que significam os sete demônios senão todos os vícios?”. Em seguida, ele passa a explicar a simbologia desses sete demônios. Agora, procure, leitor: onde está a frase atribuída por Rodrigo Silva?

“Está claro, irmãos, que aquela mulher previamente usou o unguento para perfumar sua carne em atos libidinosos.”

Simplesmente não existe.

Comparação do que Gregório Magno disse com Rodrigo Silva

Para ficar mais claro vamos comparar os textos:

Citação de Rodrigo Silva:

“Aquela a quem o evangelista Lucas chama de mulher pecadora é a Maria [Madalena] da qual são expulsos os sete demônios. E o que significam esses sete demônios senão todos os vícios? Está claro, irmãos, que aquela mulher previamente usou o unguento para perfumar sua carne em atos libidinosos”.

O que Gregório Magno realmente disse:

Ora, esta que Lucas chama mulher pecadora, João chama Maria; cremos que é a mesma Maria da qual, segundo Marcos, foram expulsos sete demônios. E o que significam os sete demônios senão todos os vícios?Porque, como em sete dias se compreende todo o tempo, com razão o número sete figura a totalidade. Maria teve, pois, sete demônios, porque estava cheia de todos os vícios.

Como ficou cabalmente demonstrado, Rodrigo Silva acrescentou arbitrariamente na citação uma frase na fala de Gregório Magno. Isso não foi dito pelo papa. Portanto, atribuir ao Papa Gregório a origem da ideia de Maria Madalena como prostituta é tomar uma afirmação inexistente e usá-la como prova da tese. É algo que literalmente absurdo.

Por que tal inclusão de Rodrigo Silva no livro Maria Madalena: Sua Verdadeira História?

Pesquisamos a página web citada por Rodrigo Silva em seu livro, e ela não apresenta o conteúdo mencionado. Isso, por si só, não seria um problema, o material pode ter sido removido pelos administradores do site. O fato é que, como já explicamos, o link fornecido no livro remete à Homilia 30, e não à Homilia 33.

Também investigamos se essa frases adicional citada por Rodrigo Silva, jamais proferida pelo próprio para Gregório Magno, já havia aparecido antes. Não encontramos nenhum registro. É possível que essa frase adicional já existisse antes de Rodrigo Silva; também é possível que ele tenha inaugurado a inclusão da frase inexistente da Homilia 33 de Gregório Magno. Como não há documentos que confirmem nenhuma dessas hipóteses, não é possível decidir.

Conclusão

Um livro que se apresenta como “a verdadeira história” de Maria Madalena não pode atribuir a um Papa e Doutor da Igreja palavras que ele jamais pronunciou.

A frase colocada entre aspas em seu livro nunca saiu da boca de São Gregório Magno, nem em 591, nem em qualquer outra homilia, nem em qualquer escriito dos últimos mil e quatrocentos anos. Quando uma obra repousa sobre uma citação literalmente inexistente, toda a credibilidade dessa obra desmorona.

Maria Madalena merece a verdade.

São Gregório Magno merece respeito.

E o leitor merece, no mínimo, honestidade.

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