Milagres na Bíblia: Antigo Testamento e Novo Testamento

Milagres na Bíblia - Antigo Testamento e Novo Testamento

Os Milagres na Bíblia ocupam um lugar decisivo na história da Revelação. Eles tornam visível a ação direta de Deus no tempo e no espaço. Desde o Gênesis até os Evangelhos, esses acontecimentos não surgem como exceções arbitrárias. Pelo contrário, aparecem como sinais inteligíveis, inseridos em contextos históricos precisos. Por meio deles, a Escritura mostra que o Criador não está preso às leis que instituiu. Ele as governa com liberdade, sabedoria e finalidade salvífica.

Ao longo da história sagrada, tais sinais extraordinários cumprem funções bem definidas. Os Milagres na Bíblia revelam quem é Deus. Além disso, confirmam a missão dos Seus enviados. Também sustentam a fé diante das limitações humanas. Assim, longe de estimular curiosidade ou espetáculo, esses atos conduzem o homem ao reconhecimento da verdade. Conduzem, ainda, à obediência da fé e à compreensão progressiva do desígnio divino na história.

O que é milagre, segundo a Bíblia?

Segundo a Bíblia, o milagre é uma intervenção direta e extraordinária de Deus na história, que transcende as leis naturais por Ele mesmo estabelecidas, manifestando Sua soberania como Criador onipotente. Os Milagres são definidos nas Escrituras como atos que, em sua substância ou em seu modo de realização, dependem de uma causa não presente nas leis da natureza.

Em primeiro lugar, eles não resultam do funcionamento ordinário do mundo criado. Ao contrário, manifestam uma intervenção superior. Assim, esses atos podem situar-se acima das leis naturais, quando as ultrapassam, como no retrocesso da sombra no relógio de Ezequias (2Rs 20,10). Além disso, podem agir contra essas leis, como na preservação dos três jovens na fornalha ardente (Dn 3,25). Por fim, podem ocorrer fora dessas leis, como na cura de um coxo por uma única palavra (At 3,6). Nada tem a ver com “violação das leis” da natureza, como mostraremos em outra oportunidade.

Do mesmo modo, a própria linguagem da Escritura revela essa riqueza conceitual. Os Milagres na Bíblia recebem designações variadas: termos hebraicos como ’ôt, môfet e pele’; o aramaico temah; e, na Septuaginta, palavras como sēmeíon, téras e dýnamis. Na mesma linha, a Vulgata utiliza expressões como signum, portentum, prodigium e miraculum. Entretanto, o termo miraculum aparece no Antigo Testamento apenas uma vez com sentido estrito de milagre (Is 29,14). Nas demais passagens, ele traduz palavras que significam “sinal”, “terror” ou “pavor” (Ex 11,7; Nm 26,10; 1Sm 14,15; Jó 33,7; Is 21,4; Jr 23,32; 44,12). Desse modo, a Escritura apresenta o milagre, antes de tudo, como um sinal eloquente, que manifesta de forma clara a ação e a presença de Deus.

Possibilidades dos Milagres na Bíblia

Os Milagres na Bíblia são possíveis porque se apoiam em verdades fundamentais afirmadas por toda a Sagrada Escritura. Antes de tudo, Deus é o Criador onipotente e o Senhor absoluto da natureza. Tudo o que Ele criou depende inteiramente d’Ele. Por isso, quaisquer que sejam as leis que regem a ordem natural, Deus pode ultrapassá-las, suspendê-las ou mesmo contrariá-las.

Contudo, Ele nunca age sem razão. Sua ação sempre segue a suprema sabedoria. A Escritura afirma com clareza: “Ele faz tudo o que quer” (Sl 115[113],3) e “Nada é impossível para Deus” (Mt 19,26; Mc 10,27; Lc 1,37; 18,27). Além disso, essa onipotência vale tanto na ordem física quanto na moral. Assim, quando Deus intervém de modo extraordinário, a Bíblia diz que Ele age “com mão forte e braço estendido” (Ex 6,6; Dt 7,19; 26,8; Sl 89[88],11.14; 136[135],12).

Do mesmo modo, as próprias leis da natureza confirmam a possibilidade dos Milagres na Bíblia. Todas as leis do mundo visível existem porque uma vontade as instituiu assim. Elas não trazem em si mesmas a razão de serem o que são. Por isso, o homem não as conhece a priori, mas apenas pela observação. Desse modo, não causa surpresa que a mesma vontade divina que estabeleceu as leis naturais possa, em certos casos, submeter a natureza a disposições diferentes.

Aliás, o livro da Sabedoria mostra que as mesmas forças naturais, obedientes a Deus, servem ora para favorecer os hebreus, ora para castigar os egípcios. A Escritura declara: “A criatura, submissa a vós, seu Criador, conformava-se a todas as transformações e estava a serviço da vossa graça” (Sb 16,24-25). Assim, longe de contradizer a razão, os milagres manifestam a soberania daquele que governa todas as coisas.

Por que os Milagres na Bíblia são realizados?

Milagre na Bíblia

Os Milagres na Bíblia são realizados por razões múltiplas e profundas. Antes de tudo, não se pode determinar a conveniência do milagre a priori. Seria presunçoso afirmar como Deus deve agir, pois tudo depende de Sua vontade livre. No entanto, quando se considera a onipotência, a justiça, a bondade e a sabedoria infinitas de Deus, e, ao mesmo tempo, a fragilidade da razão e da vontade humanas, alguns motivos tornam-se claros. Assim, a própria Sagrada Escritura revela ou sugere por que Deus intervém de modo extraordinário na história.

1. Os Milagres na Bíblia recordam a existência do Criador

Em primeiro lugar, os Milagres na Bíblia lembram ao homem que existe, acima e fora da natureza, um Criador onipotente. Deus não se confunde com o mundo criado. Ele o governa. São Paulo afirma: “O que se pode conhecer de Deus é manifesto aos homens, pois Deus lho tornou manifesto. Desde a criação do mundo, suas perfeições invisíveis, sua eterna onipotência e sua divindade são percebidas pelo intelecto por meio das criaturas” (Rm 1,19-23). Entretanto, os homens trocaram essa glória por imagens corruptíveis.

Do mesmo modo, o livro da Sabedoria denuncia esse desvio: “Através dos bens visíveis, não puderam compreender aquele que é, e, considerando suas obras, não reconheceram o Criador” (Sb 13,1-3). Por isso, Deus permite que sejam castigados por criaturas semelhantes às que divinizaram (Sb 16,1). Assim, ao realizar prodígios, Deus recorda Sua personalidade esquecida. Ele declara ao faraó: “Enviarei todos os meus flagelos contra o teu coração, para que saibas que não há ninguém semelhante a mim em toda a terra” (Ex 9,14). Essa verdade reaparece constantemente na Escritura (Ex 9,29; 10,2; 14,4.18; 29,46; Dt 4,35; 29,6; Sl 100[99],3; Is 45,3).

2. Despertam a consciência da Providência

Além disso, os Milagres na Bíblia recordam ao próprio fiel a ação contínua de Deus no mundo. A Providência age de modo regular, porém invisível. Por isso, muitos não percebem sua presença. Deus, então, realiza prodígios extraordinários para chamar a atenção às maravilhas ordinárias de Sua ação conservadora.

Assim, Deus produz de forma imediata efeitos que normalmente exigiriam tempo e causas secundárias. Santo Agostinho explica isso ao comentar a multiplicação dos pães. Para ele, o milagre apenas antecipa aquilo que Deus realiza diariamente na natureza. Do mesmo modo, São Tomás ensina que Deus pode agir diretamente onde costuma agir por mediações (cf. Contra os Gentios, III, 99). Desse modo, o milagre não rompe a Providência. Ele a revela.

3. Os Milagres confirmam a missão dos enviados de Deus

Muito frequentemente, os Milagres na Bíblia servem para dar crédito aos homens escolhidos por Deus. Isso ocorre com Moisés (Ex 4,2-9; 7,8-10), com Josué (Js 3,7-13), com Gideão (Jz 6,36-40), com Samuel (1Sm 3,20-21), com Elias (1Rs 18,19-39), com Eliseu (2Rs 2,13-15), com Isaías (Is 38,7-8) e com Daniel (Dn 2,28.47).

Do mesmo modo, os Apóstolos e discípulos recebem esse poder (Mt 10,8; Mc 16,17-18; At 3,7). Além disso, o próprio Jesus apresenta Seus milagres como prova direta de Sua missão. Eles autenticam Sua palavra e exigem uma resposta de fé. Isso podemos verificar no primeiro milagres de Jesus.

4. Os Milagres na Bíblia confirmam verdades invisíveis e futuras

Por fim, os Milagres na Bíblia confirmam realidades que não podem ser verificadas pela experiência imediata. Assim, o retrocesso da sombra no relógio de Ezequias confirma a prorrogação de sua vida (Is 38,7-8). Zacarias fica mudo, o que indica que teve uma visão no santuário (Lc 1,20-22). A gravidez de Isabel, apesar da idade avançada, fortalece a fé de Maria no mistério da encarnação (Lc 1,36-37).

Além disso, os anjos aparecem na manjedoura (Lc 2,9-14) e no sepulcro (Mt 28,2-5). Eles manifestam a divindade de Cristo e a realidade de Sua ressurreição. Por essa razão, a Escritura chama frequentemente os milagres de “sinais”. Eles oferecem provas visíveis de verdades que ultrapassam os sentidos, seja temporária, seja definitivamente.

O reconhecimento do milagre nas escrituras

Os Milagres na Bíblia exigem uma distinção simples, mas essencial: é preciso separar o que acontece do porquê acontece. Em primeiro lugar, o efeito do milagre pode ser visível e percebido pelos sentidos. No entanto, em alguns casos, esse efeito permanece invisível, sobretudo quando se trata da ordem espiritual. Por isso, a Escritura mostra que Deus costuma associar esses fatos invisíveis a sinais concretos e observáveis. Assim, mesmo quando a causa última do milagre não pode ser vista, o homem dispõe de critérios seguros para reconhecer que uma intervenção divina realmente ocorreu.

1. Os Milagres na Bíblia e os efeitos espirituais confirmados por sinais visíveis

Em primeiro lugar, quando os Milagres na Bíblia pertencem à ordem puramente espiritual, eles não se tornam acessíveis à observação direta. No entanto, quase sempre vêm acompanhados de fatos sensíveis que os confirmam. Assim, Deus assistia invisivelmente Seu povo na saída do Egito, mas a coluna de nuvem tornava essa assistência perceptível (Ex 13,21-22). Do mesmo modo, a presença invisível de Deus no Templo de Salomão manifestou-se pelo fogo e pela glória que o povo viu descer sobre o edifício (2Cr 7,2-3).

Além disso, o mistério invisível da encarnação realizou-se em Maria, mas recebeu uma confirmação sensível na maternidade de Isabel (Lc 1,36). Da mesma forma, a remissão invisível dos pecados do paralítico foi garantida por sua cura corporal (Mt 9,6-7; Mc 2,10-11; Lc 5,24-25). Do mesmo modo, a presença do Espírito Santo nos Apóstolos manifestou-se exteriormente pelo dom das línguas (At 2,4; 10,46; 19,6). Assim, quando um sinal visível confirma um fato invisível, a Escritura conduz a uma conclusão segura: o sobrenatural invisível é verdadeiro porque o sobrenatural visível foi claramente constatado.

2. Os Milagres na Bíblia e a constatação sensível dos fatos físicos

Em segundo lugar, quando os Milagres na Bíblia ocorrem na ordem física, seus efeitos se verificam pelos mesmos meios usados para constatar fatos naturais. Por isso, não foi mais difícil para o povo reconhecer que o Jordão estava seco do que observar suas águas transbordando (Js 3,17). Do mesmo modo, a mãe do filho da sunamita constatou a volta da vida com a mesma certeza com que antes reconhecera a morte (2Rs 4,20.36-37).

Além disso, depois da cura, era tão fácil reconhecer a visão daquele que nascera cego quanto antes fora reconhecer sua cegueira (Jo 9,9-10.20-21). Assim, os sentidos humanos, exercidos em condições normais, bastam para verificar o efeito material do milagre. Mesmo quando o prodígio transforma profundamente um corpo, os sentidos continuam aptos a perceber o que permanece acessível. Moisés vê claramente que a sarça arde sem se consumir (Ex 3,2). Os serventes nas Bodas de Caná sabem que colocaram água nas talhas, e os convidados reconhecem que bebem vinho (Jo 2,9).

Do mesmo modo, na transfiguração, os três Apóstolos percebem sem dificuldade a transformação do Salvador (Mt 17,2). Após a ressurreição, o corpo de Cristo escapa às leis ordinárias da matéria, mas continua visível e palpável. Ele come, fala e mostra as marcas da paixão (Mt 28,9; Lc 24,15-30.41-42; Jo 20,17.27). Portanto, os fatos miraculosos nunca se subtraem à observação sensível. Eles se verificam como qualquer outro fato real.

3. Os Milagres na Bíblia e o juízo da razão sobre a causa

Uma vez constatado o fato, a razão humana busca sua causa. Foi exatamente isso que fizeram as testemunhas dos Milagres na Bíblia. Ao perceberem que o efeito não se explicava por forças naturais proporcionais, elas reconheceram a ação divina. Os magos do Egito exclamaram: “Aqui está o dedo de Deus” (Ex 8,19). Nabucodonosor chegou à mesma conclusão diante da revelação do sonho esquecido (Dn 2,47).

Do mesmo modo, os Apóstolos ficaram tomados de espanto ao ver a tempestade acalmar-se instantaneamente (Mt 8,27; Mc 4,40; Lc 8,25). O cego de nascença concluiu com lógica que seu benfeitor vinha de Deus (Jo 9,33). O próprio Jesus fundamentou Sua missão em obras que ninguém jamais realizou (Jo 15,23). Assim, o bom senso conduz a uma conclusão natural: todo efeito que ultrapassa as forças ordinárias da natureza aponta para um poder superior a ela.

4. Os Milagres na Bíblia e a objeção do desconhecimento das leis naturais

Entretanto, alguns objetam que seria preciso conhecer todas as forças da natureza para admitir um milagre. Contudo, essa exigência não se sustenta. Não é necessário conhecer todas as leis para reconhecer que uma delas foi transgredida em determinado caso. Além disso, admitir que certos fatos resultam de um conhecimento excepcional e irrepetível das forças ocultas da natureza equivale a supor um milagre ainda maior.

De fato, os Milagres na Bíblia contradizem leis naturais bem conhecidas. Duas leis naturais não podem entrar em contradição quando as circunstâncias são idênticas. Assim, curas instantâneas por uma única palavra, ressurreições de mortos e a submissão das forças físicas a uma influência puramente espiritual não podem ser explicadas por causas naturais desconhecidas.

5. Os Milagres a relação com a fé

Por fim, não se pode afirmar que os Milagres na Bíblia dependam necessariamente da fé de quem os recebe. É verdade que, em alguns casos, a fé precede o milagre, como na sunamita (2Rs 4,28-37), nos jovens lançados na fornalha (Dn 3,17) e em muitos episódios do Evangelho (Mt 8,10.13; 9,2.22.29; 15,28; Mc 2,5; 5,34; 10,52; Lc 5,20; 7,9.50; 8,48; 17,19; 18,42). Também Maria creu para que a encarnação se realizasse (Lc 1,38.45).

No entanto, na maioria dos casos, a fé pertence a terceiros que intercedem ou esperam o milagre. Além disso, quase sempre o milagre precede a fé e visa produzi-la. O endurecimento do faraó e a incredulidade de muitos judeus mostram que o milagre nem sempre alcança esse efeito. A dificuldade dos próprios Apóstolos em crer na ressurreição confirma esse ponto (Mc 16,14; Mt 28,17).

Assim, na Sagrada Escritura, os Milagres na Bíblia aparecem como meios escolhidos por Deus para manifestar Sua ação, credenciar Seus enviados e suscitar a fé. Eles não resultam dessa fé inexistente. Eles a provocam.

Interpretação dos relatos de milagres na Bíblia

Os Milagres na Bíblia exigem uma leitura atenta e equilibrada. Antes de tudo, não se deve nem negar o sobrenatural por princípio, nem ampliá-lo sem critério. A própria Escritura, lida à luz da razão e da fé da Igreja, oferece regras seguras para interpretar corretamente os relatos milagrosos. Assim, cada texto deve ser compreendido segundo sua forma, seu contexto e sua intenção.

1. Os Milagres na Bíblia e o sentido literal dos Evangelhos

Em primeiro lugar, os Milagres na Bíblia devem ser entendidos em sentido literal sempre que não exista uma razão séria para proceder de outro modo. Isso vale de modo especial para os Evangelhos. Os relatos dos evangelistas são sóbrios, objetivos e desprovidos de ornamentos poéticos. Fora o caráter sobrenatural — que não autoriza rejeição prévia — nada indica alegoria, exagero ou simbolismo literário.

Por isso, quando algum fato parece admitir uma explicação natural, tal interpretação só é legítima se respeitar a reta razão e a autoridade da Igreja. Um exemplo clássico é o episódio da piscina de Betesda, em que alguns autores supuseram uma agitação natural e periódica das águas (Jo 5,4). Mesmo assim, ainda que se admitisse essa hipótese, permaneceria o caráter milagroso do fato principal: apenas um doente é curado, qualquer que seja sua enfermidade, e a água não conserva depois nenhuma virtude curativa. Assim, o sinal não se reduz a um fenômeno físico comum.

2. Os Milagres na Bíblia e a linguagem do Antigo Testamento

Por outro lado, os Milagres na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, nem sempre exigem uma interpretação estritamente literal. A Igreja reconhece — e permite ensinar — que muitos desses relatos utilizam formas poéticas, alegóricas ou hiperbólicas. Nesses casos, é legítimo distinguir a forma literária da verdade histórica que ela transmite.

Com efeito, a Encíclica Providentissimus Deus ensina que, ao descrever fenômenos naturais, os autores sagrados recorrem à linguagem comum de seu tempo. Deus falou aos homens de modo que pudessem compreendê-Lo. Por isso, alguns comentaristas admitem maior espaço para causas naturais em certos episódios, como nas pragas do Egito ou no aparecimento das codornizes no deserto. Ainda assim, a intervenção divina não desaparece. Ela se manifesta pelo anúncio prévio dos fatos, por sua perfeita adequação aos desígnios de Deus e pelo modo como a Providência os utiliza para alcançar Seus fins.

Desse modo, cada milagre deve ser examinado individualmente. Em princípio, não é necessário nem prudente estender o sobrenatural além do que os próprios textos indicam. A Igreja condena apenas aqueles que negam a possibilidade dos milagres, reduzem todos os relatos a mitos ou afirmam que jamais se pode ter certeza deles (Concílio Vaticano I, De fide, III, 4). Dentro desses limites, permanece plena liberdade para distinguir, com prudência e sob a autoridade da Igreja, entre a ação ordinária de Deus por meio da natureza e Sua ação extraordinária.

Distinção dos fatos sobrenaturais na Bíblia

Os Milagres na Bíblia exigem discernimento. Nem todo fato que parece sobrenatural tem a mesma origem. Por isso, a Sagrada Escritura distingue esses acontecimentos segundo seu autor e segundo sua natureza. Assim, ela permite reconhecer o que vem de Deus, o que procede de espíritos maus e o que não passa de engano humano.

1. Fatos verdadeiramente sobrenaturais

Em primeiro lugar, os Milagres na Bíblia propriamente ditos têm Deus como único autor. Esses fatos revelam sempre sinais claros de poder, santidade, bondade, utilidade e perfeita adequação aos desígnios divinos. Por isso, tornam reconhecível a ação de Deus. Ele pode agir diretamente ou por meio de anjos e de homens.

Entretanto, quando Deus age por intermédio de homens, essa ação permanece visível e depende de um poder concedido por Ele, seja por iniciativa divina, seja em resposta à oração. A intervenção dos anjos, ao contrário, nem sempre se deixa perceber. No caso dos milagres de Jesus Cristo, a situação é única. Ele realiza milagres pela divindade que n’Ele habita. Sua humanidade não atua como intermediária, como ocorre com os profetas ou os apóstolos. Ela serve como instrumento unido pessoalmente à divindade.

2. O sobrenatural diabólico

Em segundo lugar, a Escritura reconhece a existência de um sobrenatural diabólico. A Bíblia mencionam efeitos produzidos por seres superiores ao homem em poder, mas que continuam sendo criaturas. Por isso, só atuam dentro dos limites permitidos pela Providência.

Essa intervenção aparece em diversos episódios: no paraíso terrestre (Gn 3,1-5; Ap 12,8); no Egito, durante as primeiras pragas (Ex 7,11.22; 8,7); nas provações de Jó (Jó 1,12; 2,6; 7,1); nas aflições de Sara, filha de Raguel (Tb 6,16.19; 8,3); na tentação de Jesus (Mt 4,1-11; Mc 1,13; Lc 4,2-13); nos prodígios de Simão, o mago (At 8,9-11); nos de Elimas (At 13,8); e nas possessões frequentemente mencionadas.

Além disso, o sobrenatural diabólico se reconhece por sinais opostos aos de Deus. Ele apresenta excentricidade, desordem, impureza e contradição com a doutrina revelada. Por essa razão, a Lei Mosaica proíbe severamente qualquer prática ligada ao demônio (Dt 18,10-13). Do mesmo modo, a Escritura anuncia que, no fim dos tempos, falsos profetas e falsos cristos multiplicarão prodígios enganadores (Mt 24,24; Mc 13,22; 2Ts 2,9).

3. O falso sobrenatural por fraude

Por fim, os Milagres na Bíblia também denunciam um falso sobrenatural que não passa de fraude humana. Um exemplo claro é o ídolo de Bel, que seus sacerdotes fingiam alimentar, e a grande serpente venerada pelos babilônios como divindade. O profeta Daniel desmascara essas imposturas de modo público e inequívoco (Dn 14,2.17-19.23.26).

Assim, a Escritura mostra que nem tudo o que impressiona os sentidos procede de Deus ou do mundo espiritual. Ao contrário, muitos prodígios nasceram da mentira e do engano. Essa distinção protege a fé e impede que o homem confunda o verdadeiro poder divino com ilusões ou manipulações.

Os Milagres do Antigo Testamento

Milagres na Bíblia Dilúvio

Até aqui, os Milagres na Bíblia foram considerados em seu caráter geral: sua possibilidade, suas razões, sua constatação e seus critérios de interpretação. Agora, o exame avança do plano teórico para o histórico. Por isso, a atenção se volta para os fatos concretos tal como aparecem no Antigo Testamento.

Nessa etapa da Revelação, os milagres acompanham a formação do povo eleito e marcam profundamente sua história. Assim, desde o Gênesis até o período imediatamente anterior a Cristo, eles assumem formas e funções próprias. A análise dos milagres do Antigo Testamento permite compreender seu contexto, seu alcance e seu papel pedagógico na preparação para o Evangelho.

1. Fatos maravilhosos no Livro do Gênesis

Já no Livro do Gênesis, aparecem ligados às origens da humanidade e ao início da história da salvação. A permanência de Adão no paraíso terrestre, bem como sua queda, envolvem diversos fatos de caráter extraordinário. A própria existência do jardim, a árvore da vida, a presença dos querubins e o papel da serpente situam o homem num estado original marcado por uma relação direta e singular com Deus. Esses elementos revelam que, desde o princípio, a ação divina ultrapassa a ordem comum da experiência humana.

Além disso, a história primitiva até a época de Abraão apresenta outros acontecimentos notáveis. Destacam-se o drama de Caim, a extraordinária longevidade dos primeiros patriarcas, o dilúvio e a confusão das línguas em Babel. Assim, os Milagres na Bíblia não surgem apenas como intervenções pontuais, mas como sinais que acompanham o juízo e a misericórdia de Deus ao longo das primeiras gerações da humanidade.

Por fim, a história dos patriarcas posteriores ao dilúvio é marcada por revelações divinas, aparições de anjos e intervenções claramente milagrosas. Entre elas estão a destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 19,15-29), a interrupção do sacrifício de Isaac (Gn 22,11-13), a multiplicação dos rebanhos de Jacó (Gn 30,37-43; 31,5-13) e a interpretação dos sonhos por José (Gn 37,5-11; 40,9-22; 41,25-36). Desse modo, o Gênesis mostra que os Milagres na Bíblia acompanham a eleição, a prova e a condução dos patriarcas, preparando o desenvolvimento posterior da história do povo de Deus.

2. Para a fundação da nação israelita

Os Milagres na Bíblia assumem papel decisivo na fundação da nação israelita. Deus realiza numerosos e grandes prodígios para libertar Seu povo do Egito, conduzi-lo pelo deserto e estabelecê-lo na terra de Canaã. Antes de tudo, vários sinais visam confirmar a missão de Moisés: a sarça ardente (Ex 3,2), a vara transformada em serpente, a lepra que aparece e desaparece na mão, e a água convertida em sangue (Ex 4,2-9.28-30).

Em seguida, manifestam-se as dez pragas do Egito, culminando na libertação de Israel. Logo depois, Deus guia o povo pela coluna de nuvem (Ex 13,21-22), abre o mar Vermelho (Ex 14,21-28), adoça as águas de Mara (Ex 15,23-25) e concede codornizes e maná no deserto (Ex 16,8-15).

Durante a caminhada, novos prodígios se sucedem: a manifestação divina no Sinai (Ex 19,3-24), a glória de Deus sobre o Tabernáculo (Ex 40,32-34), o fogo do céu que consome o holocausto de Aarão (Lv 9,23-24), o castigo de Nadab e Abiú (Lv 10,1-2), a segunda queda das codornizes (Nm 11,31-32), a lepra infligida a Maria (Nm 12,10-15), o castigo de Coré, Datã e Abirão (Nm 16,19-49), a floração da vara de Aarão (Nm 17,8), a água que brota da rocha (Nm 20,8), a cura pela serpente de bronze (Nm 21,9), a fala da jumenta de Balaão (Nm 22,30) e a sepultura misteriosa de Moisés (Dt 34,5-6).

Por fim, ao entrar em Canaã, o povo presencia novos milagres: a travessia do Jordão (Js 3,15-17), a queda das muralhas de Jericó (Js 6,20), a identificação de Acã por sorteio (Js 7,18), a parada do sol na vitória de Gabaon (Js 10,11-13), o fogo que consome a oferenda de Gideão (Jz 6,21), o sinal do orvalho na lã (Jz 6,36-40) e o anúncio do nascimento de Sansão (Jz 13,2-5).

3. Sob os reis

Os Milagres na Bíblia, no período que vai de Samuel ao cativeiro, acompanham o governo, o culto e a ação profética em Israel. No início, surgem as revelações ao jovem Samuel (1Sm 3,4-18), a queda do ídolo Dagom diante da Arca (1Sm 5,2-5), o retorno da Arca conduzida por duas vacas (1Sm 6,7-12) e o castigo dos habitantes de Betsames (1Sm 6,19). Além disso, Deus confirma Saul (1Sm 9,17) e, depois, o jovem Davi para o trono (1Sm 16,12). Por fim, ocorre a evocação de Samuel pela pitonisa de Endor (1Sm 28,11-20).

Sob Davi, que recebe comunicações divinas (2Sm 2,1; 7,4-5), Uzá é punido por tocar a Arca (2Sm 6,7) e uma peste de três dias segue a contagem do povo (2Sm 24,15). Em seguida, Salomão recebe revelações (1Rs 3,5; 9,2) e, na dedicação do Templo, uma nuvem milagrosa o enche (1Rs 8,10-11).

Depois, os profetas realizam sinais: Aías anuncia a Jeroboão sua realeza (1Rs 11,31) e a morte do filho do rei (1Rs 14,12); a mão de Jeroboão seca e o altar se rompe (1Rs 13,3-5). As profecias, próximas ou distantes, pertencem ao sobrenatural.

Elias prediz a estiagem (1Rs 17,2), é alimentado por corvos (1Rs 17,4.6), multiplica farinha e azeite (1Rs 17,14-16), ressuscita o filho da viúva (1Rs 17,22), faz descer fogo no Carmelo (1Rs 18,34-38), caminha ao Horeb com alimento angélico (1Rs 19,5-8), unge reis e Eliseu (1Rs 19,15-16), consome emissários de Ocozias com fogo (2Rs 1,10-12.16), abre o Jordão (2Rs 2,8) e é arrebatado (2Rs 2,11).

Eliseu abre o Jordão (2Rs 2,14), adoça Jericó (2Rs 2,19-22), anuncia água contra Moab (2Rs 3,16-20), multiplica azeite (2Rs 4,3-6), ressuscita o filho da sunamita (2Rs 4,16-37), adoça o ensopado (2Rs 4,40-41), multiplica pães (2Rs 4,42-44), cura Naamã e pune Geazi (2Rs 5,10.14.26-27), faz flutuar o ferro (2Rs 6,6), cega e conduz os sírios (2Rs 6,9-20) e, após sua morte, ressuscita um cadáver (2Rs 13,21).

Sob Ezequias, a sombra retrocede (2Rs 20,9-11) e o exército de Senaqueribe é aniquilado (2Rs 19,35). Também Jonas é preservado no grande peixe (Jn 2,1).

Do cativeiro até Jesus Cristo

Os Milagres na Bíblia, no período que vai do cativeiro ao advento de Cristo, manifestam a ação constante de Deus mesmo em tempos de provação e espera. Durante o cativeiro, o anjo Rafael torna-se companheiro do jovem Tobias e comunica a objetos comuns o poder de expulsar demônios e curar a cegueira (Tb 5,6-7; 6,7.9; 8,2; 11,13-15). Ao mesmo tempo, em Babilônia, Daniel recebe de Deus o dom de interpretar sonhos (Dn 1,17; 2,27-45; 4,16-30) e de decifrar as palavras misteriosas aparecidas durante o banquete de Baltassar (Dn 5,25-28). Além disso, seus três companheiros saem ilesos da fornalha ardente (Dn 3,94), e o próprio Daniel escapa milagrosamente da cova dos leões (Dn 6,22; 14,39).

Após o retorno do cativeiro, os Milagres na Bíblia tornam-se mais raros, mas não desaparecem. O Segundo Livro dos Macabeus relata fatos notáveis desse período. Entre eles estão o reacendimento milagroso do fogo sagrado (2Mc 1,20-22) e o castigo infligido a Heliodoro, enviado para saquear o Templo (2Mc 3,25-35). Do mesmo modo, Judas Macabeu recebe auxílio sobrenatural quando cinco cavaleiros celestes aparecem para combater ao seu lado (2Mc 10,29). Por fim, ele tem a visão do profeta Jeremias orando pelo povo e intercedendo pela cidade santa (2Mc 15,14).

Assim, nesse longo intervalo histórico, os Milagres na Bíblia não apenas sustentam a fé de Israel em meio às adversidades, mas também mantêm viva a esperança messiânica. Eles preparam silenciosamente o caminho para a revelação plena que se realizará com a vinda de Jesus Cristo.

Características dos milagres do Antigo Testamento

Milagres na Bíblia Ressurreição de Lázaro

Os Milagres na Bíblia, quando considerados no Antigo Testamento, apresentam traços próprios, ligados à etapa pedagógica da Revelação. Deus forma um povo ainda rude, cercado por idolatrias e ameaças constantes. Por isso, os milagres assumem funções claras: ensinar, corrigir, proteger e preparar. Eles não surgem de modo arbitrário. Ao contrário, acompanham momentos decisivos da história de Israel e moldam sua consciência religiosa ao longo dos séculos.

1. Os Milagres na Bíblia e a pedagogia do temor

Em primeiro lugar, muitos milagres do Antigo Testamento trazem o selo da majestade e do temor. São grandiosos e, por vezes, terríveis. O dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, as pragas do Egito, o afogamento do exército egípcio no mar Vermelho, o castigo dos revoltosos no deserto, a queda de Jericó e o extermínio do exército de Senaqueribe manifestam o domínio absoluto de Javé. Assim, esses sinais exigem reverência ao Deus que governa o universo e que escolheu Israel como Seu povo.

Ao mesmo tempo, outros milagres revelam a bondade divina. A multiplicação dos rebanhos de Jacó, o maná, as codornizes e a água no deserto mostram que o mesmo Deus temível é também provedor e fiel aos que O servem.

2. Os Milagres na Bíblia como atos de severidade exemplar

Além disso, há milagres individuais marcados pela severidade. O castigo de Nadab e Abiú, de Acã, dos habitantes de Betsames, de Uzá e o fogo que desce, por palavra de Elias, sobre os emissários de Ocozias cumprem função corretiva. Esses sinais visam infundir temor num povo inclinado ao esquecimento da santidade divina. Em contextos assim, intervenções rigorosas preservam a distinção entre Javé e os falsos deuses.

3. Os Milagres na Bíblia com caráter antecipadamente evangélico

Por outro lado, vários milagres já possuem um tom claramente evangélico. A interrupção do sacrifício de Abraão, as curas pela serpente de bronze, as ressurreições realizadas por Elias e Eliseu, a multiplicação de alimentos e a cura de Naamã e de Ezequias revelam misericórdia, compaixão e salvação. Desse modo, eles mostram que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo.

4. Os Milagres na Bíblia e seu ritmo histórico

Por fim, ao longo do período que vai de Moisés até Jesus Cristo, os milagres não se distribuem de forma uniforme. No Êxodo, eles se multiplicam e assumem grandeza singular. Esse momento funda toda a memória religiosa de Israel. Mais tarde, os milagres surgem de modo esporádico, como lembrete da presença contínua de Deus. Elias e Eliseu marcam uma retomada intensa às vésperas do cativeiro. Daniel manifesta o poder de Javé em terra estrangeira. Depois disso, ao retornar do exílio e enquanto se aguarda o Evangelho, os milagres e as profecias quase cessam (Eclo 26,3-8), preparando o silêncio que precede a vinda de Cristo.

Os Milagres do Novo Testamento

Depois de considerar os milagres na etapa preparatória da Revelação, chega-se agora ao seu pleno desabrochar no Novo Testamento. Aqui, os milagres já não servem apenas para formar um povo ou impor o temor do Senhor, mas para manifestar a proximidade definitiva de Deus com os homens. Eles acompanham a encarnação, a vida, a morte e a glorificação de Cristo, e tornam visível a irrupção do Reino de Deus na história.

Nesse novo contexto, os milagres assumem um sentido mais luminoso e salvífico. Em Jesus Cristo, o poder divino não age como sinal distante, mas como presença viva e atuante. Em seguida, nos Atos dos Apóstolos, esse mesmo poder continua a operar para fundar e consolidar a Igreja. Assim, os milagres do Novo Testamento revelam não apenas a força de Deus, mas também sua misericórdia, sua caridade e sua intenção de conduzir todos os homens à fé no Filho enviado.

Nos Evangelhos

Os Milagres na Bíblia, no Novo Testamento, começam já nos primeiros capítulos dos Evangelhos. O relato inicial apresenta aparições angélicas a Zacarias (Lc 1,11) e a Maria (Lc 1,26), seguidas de dois nascimentos intimamente ligados ao plano divino. O nascimento de João Batista ocorre em circunstâncias extraordinárias (Lc 1,7.36.57), enquanto o de Jesus se realiza por um milagre absolutamente singular: a concepção virginal pelo poder do Espírito Santo (Lc 1,35).

Ao longo da vida pública de Nosso Senhor, desde o nascimento até a ascensão, os Evangelhos registram numerosos milagres. Alguns dizem respeito exclusivamente à própria pessoa do Salvador e não têm paralelo antes nem depois d’Ele: Sua concepção sobrenatural, Sua transfiguração, Sua ressurreição e Sua ascensão. Os demais milagres manifestam um poder divino que age por iniciativa própria, com plena soberania e sem esforço. Além disso, esse poder não permanece fechado em Sua pessoa. Cristo o comunica aos Apóstolos e discípulos quando os envia a anunciar o Evangelho, prometendo sinais que acompanharão sua missão (Mc 16,17.18.20). Mais ainda, Ele afirma que, pela fé n’Ele, poderão realizar não apenas obras semelhantes, mas até maiores (Jo 14,12).

Nos Atos dos Apóstolos

São Pedro cura com sua sombra

Os Milagres na Bíblia continuam nos Atos dos Apóstolos como fundamento visível da Igreja nascente. Logo no início, a descida do Espírito Santo em Pentecostes manifesta-se com sinais sensíveis e com o dom das línguas (At 2,2-8). Em seguida, esses milagres produzem frutos imediatos: a conversão de cerca de três mil pessoas (At 2,41) e, pouco depois, de aproximadamente cinco mil (At 4,4). Ainda nesse contexto inaugural, ocorre a cura do coxo à porta do Templo (At 3,6-7), o castigo exemplar de Ananias e Safira (At 5,5.10) e numerosas curas realizadas até mesmo pela sombra de São Pedro (At 5,15-16). O testemunho milagroso estende-se a Santo Estêvão, cheio de sinais e prodígios (At 6,8), que contempla o Filho do Homem glorificado (At 7,55), e a São Filipe, cujos milagres em Samaria atraem muitos à fé (At 8,6), culminando em seu arrebatamento após a conversão do eunuco (At 8,39).

São Pedro prossegue essa obra com novos milagres decisivos. Ele cura o paralítico de Lida (At 9,34), ressuscita Tabita em Jope (At 9,40), recebe revelações divinas ligadas à conversão dos gentios (At 10,3.10-11) e é libertado milagrosamente da prisão de Herodes (At 12,7), enquanto o próprio perseguidor sofre castigo imediato (At 12,23).

São Paulo, por sua vez, entra na missão apostólica por meio de uma conversão milagrosa (At 9,3-18). Depois disso, cega o mago Elimas (At 13,11), cura um coxo em Listra (At 14,9), expulsa um espírito maligno em Filipos (At 16,18) e é libertado sobrenaturalmente da prisão (At 16,26). Realiza curas pelo contato de panos tocados por ele (At 19,12), ressuscita o jovem Êutico em Trôade (At 20,10), recebe assistência angélica durante o naufrágio (At 27,22-24), sai ileso da picada de uma víbora em Malta (At 28,5) e cura o pai de Públio (At 28,8).

Características dos milagres do Novo Testamento

No Novo Testamento, os Milagres na Bíblia assumem um caráter próprio e inconfundível. Eles não apenas confirmam a missão de Jesus Cristo e de Seus Apóstolos, mas também revelam, com clareza progressiva, a bondade de Deus, a credibilidade do anúncio evangélico e a continuidade da ação divina na história da Igreja.

1. Milagres de poder e bondade nos Evangelhos

Os milagres do Evangelho são todos milagres de poder e de bondade. Nenhum nasce de uma intenção de severidade contra os que fazem o mal. Quando Tiago e João desejam fazer descer fogo do céu sobre uma cidade samaritana, Nosso Senhor os repreende claramente: “Vós não sabeis de que espírito sois” (Lc 9,55). Em tudo, o Salvador manifesta Sua bondade e Seu amor pelos homens (Tt 3,4). Por isso, o conjunto de Seus milagres possui um caráter de utilidade, caridade, amabilidade e solicitude, sem paralelo antes nem depois d’Ele.

2. Milagres próprios da era apostólica

Os Apóstolos são objeto de milagres que não encontram analogia direta nos Evangelhos: o dom das línguas, as libertações milagrosas da prisão, o transporte súbito a lugares distantes etc. Além disso, realizam obras que, sob certos aspectos, parecem maiores que as do próprio Senhor: São Pedro apóstolo cura pela sua sombra, e São Paulo pelo contato dos tecidos que usara. Contudo, quando o bem da Igreja nascente o exige, reaparecem traços dos milagres do Antigo Testamento. Nota-se novamente a severidade nos castigos de Ananias e Safira, de Elimas e de Herodes.

3. Credibilidade histórica dos milagres

Todos os milagres do Novo Testamento ocorrem em circunstâncias que não permitem dúvida quanto à sua realidade. A maioria se dá de forma pública, e o testemunho dos autores sagrados, aceito pelos contemporâneos, oferece garantias sólidas. Alguns milagres tiveram poucas testemunhas, ou até apenas uma, como a visita do anjo a Maria, a tentação de Jesus no deserto ou a aparição do anjo em Sua agonia. Ainda assim, essas testemunhas são tão qualificadas que seria irrazoável negar-lhes crédito. A elas se deve a mesma fé que se daria a inúmeras testemunhas.

4. Continuidade histórica dos milagres

Os milagres do Evangelho e dos Atos, excetuando os ligados diretamente à pessoa de Nosso Senhor ou a circunstâncias passageiras, como certos dons sobrenaturais, não são fatos isolados. Eles se reproduzem ao longo de todos os séculos, oferecendo a cada geração uma demonstração, por analogia, da possibilidade e da realidade dos milagres evangélicos.

5. Diferença entre os milagres de Cristo e os dos homens

Há uma distinção essencial entre os milagres de Jesus Cristo e os realizados pelos homens. Estes só operam efeitos sobrenaturais por um poder recebido de Deus, único autor do sobrenatural absoluto. Por isso, quando os Apóstolos realizam milagres, ou rezam previamente, como São Pedro em Jope (At 9,40), ou declaram explicitamente agir em nome e pelo poder de Deus (At 3,6; 9,34).

Mesmo quando o texto não menciona essas condições, a pregação apostólica deixa claro que sempre agem em nome de Deus. Caso contrário, o poder cessaria ou denunciaria origem diabólica. O próprio Salvador afirma: “Não há quem, depois de ter feito um milagre em meu nome, possa logo falar mal de mim” (Mc 9,38). Um poder sobrenatural vindo de Deus não pode acompanhar-se de palavra contrária a Deus.

Quando, ao contrário, é Jesus Cristo quem realiza o milagre, Ele não invoca outro poder nem o pede a ninguém: Ele age.

6. Valor teológico dos milagres

Nosso Senhor realiza milagres para provar a divindade de Sua missão, não para demonstrar diretamente Sua divindade pessoal. Embora pudesse fazê-lo por Sua iniciativa e poder independente, esses dados se pressupõem mais do que se demonstram, enquanto permanecem isolados de Sua afirmação explícita. Assim, o milagre prova que Cristo é o enviado de Deus e que Sua palavra é digna de fé (cf. Jesus-Christ, t. III, col. 1505-1506). Uma vez confirmado o valor de Sua palavra, resta ouvi-la e crer.

O mesmo vale para os milagres dos Apóstolos. Eles mostram que os Apóstolos são enviados de Deus e que seu testemunho é verdadeiro. Esse testemunho fundamenta logicamente a divindade de Nosso Senhor e de Seu ensinamento. Por isso, os milagres ocupam lugar central no Novo Testamento. Como escreve Pascal:

“Jesus Cristo fez milagres, e depois os Apóstolos, e numerosos santos nos primeiros tempos, porque, não estando ainda cumpridas as profecias — que se cumpririam neles —, nada as atestava senão os milagres…” (Pensées, éd. Guthlin, Paris, 1896, p. 228-229).

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