Urbano V ocupa um lugar singular na história da Igreja como papa monge, reformador austero e defensor incansável da dignidade da Sé Apostólica. Antes de tudo, sua vida manifesta a tensão entre a fidelidade evangélica e as pressões políticas de um dos períodos mais difíceis do papado medieval. Por isso, a Igreja o venera como Beato Urbano V, celebrando sua memória em 19 de dezembro.
Desde o início, Urbano V demonstrou que o verdadeiro governo da Igreja nasce da vida espiritual. Assim, mesmo elevado à cátedra de São Pedro, jamais abandonou o espírito beneditino que moldou toda a sua existência.
Urbano V: origem, formação e vida monástica
Em primeiro lugar, Urbano V nasceu por volta de 1310, no castelo de Grizac, na região do Languedoc, sul da França. Seu nome de batismo era Guillaume de Grimoard, membro de uma família nobre. Desde cedo, recebeu sólida formação intelectual, estudando em Montpellier e Toulouse. Posteriormente, doutorou-se em direito canônico, destacando-se pelo rigor acadêmico e pela retidão moral.
Logo depois, Guillaume ingressou na vida monástica como monge beneditino no priorado de Chirac. Nesse sentido, sua existência passou a ser marcada pela austeridade, pelo amor à liturgia e por profunda devoção à Virgem Maria. Além disso, exerceu o magistério em importantes universidades, como Montpellier, Paris, Avinhão e Toulouse. Do mesmo modo, assumiu o governo de grandes abadias, entre elas Saint-Germain-d’Auxerre e Saint-Victor de Marselha.
A eleição de Urbano V e o papado em Avinhão
Em 1362, enquanto servia como legado papal em Nápoles, Guillaume de Grimoard foi eleito papa aos 52 anos, mesmo sem ser cardeal, fato raro na história da Igreja. Por prudência, os cardeais mantiveram a eleição em segredo, temendo tumultos, pois o povo romano desejava um papa italiano.
Ainda assim, Guillaume aceitou a eleição com relutância. Então, escolheu o nome Urbano V, inspirado pelo fato de todos os papas anteriores com esse nome terem sido santos. Consagrado em 6 de novembro de 1362, tornou-se o 200º sucessor de São Pedro e o sexto papa do chamado Cativeiro de Avinhão.
Desde o início, Urbano V governou como um verdadeiro monge no trono pontifício. Por isso, continuou a usar o hábito beneditino e viveu com simplicidade, em contraste com o luxo da cúria da época.
A reforma moral da Igreja
Sobretudo, Urbano V destacou-se como reformador rigoroso. Em primeiro lugar, combateu a corrupção, a simonia e o nepotismo. Além disso, recusou favorecer parentes e obrigou até mesmo seu pai a devolver pensões indevidas. Assim, deu exemplo pessoal de justiça e desapego.
Do mesmo modo, promoveu reformas disciplinares no clero, convocando concílios provinciais. Ao mesmo tempo, mostrou-se próximo dos pobres, distribuindo esmolas generosas e exigindo que a caridade fosse vivida de modo concreto. Desse modo, uniu firmeza moral e misericórdia cristã.
O retorno de Urbano V a Roma
Antes de mais nada, o grande ideal de Urbano V foi restaurar a Sede Apostólica em Roma, após mais de sessenta anos em território francês. Apesar disso, enfrentou forte oposição do rei Carlos V da França e dos cardeais franceses.
Contudo, movido por profunda consciência eclesial, Urbano V partiu de Avinhão em 30 de abril de 1367. Finalmente, chegou a Roma em 16 de outubro de 1367, sendo acolhido com entusiasmo. Com emoção, chorou ao ver as basílicas em ruínas, inclusive a de São Pedro, e iniciou amplas obras de restauração.
Além disso, estabeleceu-se no Vaticano e promoveu a pacificação da Itália com o apoio do cardeal Albornoz. Assim, por alguns anos, Roma voltou a ser, de fato, o centro visível da Igreja.
Urbano V e a unidade da Igreja
Ao mesmo tempo, Urbano V trabalhou pela reunificação entre Oriente e Ocidente. Em 1369, recebeu em Roma o imperador bizantino João V Paleólogo, que professou a fé católica. Todavia, fatores políticos impediram a plena concretização da união.
Ainda assim, Urbano V promoveu iniciativas missionárias e apoiou ações contra a expansão turca. Por fim, enviou missionários a regiões como Bulgária, Bósnia e até à Ásia, demonstrando zelo universal pela Igreja.
Morte, culto e beatificação
Porém, novas guerras, revoltas nos Estados Pontifícios e pressões políticas levaram Urbano V a retornar a Avinhão em 5 de setembro de 1370. Apesar das advertências de Santa Brígida da Suécia, ele cedeu. Pouco depois, adoeceu gravemente.
Assim, Urbano V morreu em 19 de dezembro de 1370, apenas três meses após o retorno. Em seu leito de morte, pediu que o povo o cercasse, afirmando: “O povo deve ver como morrem os papas.” Inicialmente, sepultaram-no em Avinhão. Posteriormente, transferiram seu corpo para a abadia de Saint-Victor de Marselha, onde ocorreram milagres.
Em conclusão, a Igreja reconheceu sua santidade ao beatificá-lo em 10 de março de 1870, por Pio IX. Urbano V permanece como o único papa de Avinhão beatificado, exemplo luminoso de reforma, humildade e fidelidade à Igreja.
Leia também: