Quem foi o primeiro Papa?

Quem foi o primeiro papa?

Muitas pessoas se perguntam Quem foi o primeiro Papa? Neste artigo vamos oferecer uma resposta honesta e embasada na Bíblia e na história documentada.

A resposta a essa pergunta pode envolver certo grau de polêmica entre católicos e protestantes, mas a resposta objetiva é: São Pedro foi o primeiro papa! Se não era bem essa a resposta que você esperava, é necessário entender alguns pontos essenciais para o reto entendimento dessa questão.

Entender quem foi o primeiro papa envolve duas questão

Quando vamos estudar as sociedades ao longo da história, nos deparamos com dois aspectos muito importantes: 1) o nome que uma instituição recebe ao longo do tempo; 2) a função que essa instituição exerce. Muitas vezes, a função aparece primeiro, de forma embrionária, e somente séculos depois surge o nome técnico que hoje utilizamos.

Um exemplo muito claro disso são os hospitais. Quando pensamos em hospital, imaginamos uma instituição estruturada, com corpo médico estável, administração própria, regras de funcionamento, assistência contínua e atendimento universal aos enfermos. Entretanto, essa forma institucional, e até mesmo o nome “hospital”, só apareceu muito tempo depois que sua função essencial já estava plenamente em uso.

No início do Cristianismo, especialmente a partir do século III, surgiram as primeiras casas de acolhimento mantidas pela Igreja para receber pobres, peregrinos, doentes e abandonados. No século IV, São Basílio Magno fundou a célebre Basiliade, reunindo estruturas para cuidados, leprosários, alojamentos e espaços de tratamento.

Essas instituições não necessariamente eram chamadas de “hospital”, muitas vezes chamadas de “casas de caridade”. Tampouco possuía toda a sofisticação organizacional que associamos ao termo. No entanto, elas já cumpriam integralmente a função hospitalar: cuidar dos enfermos, oferecer abrigo, tratar feridos, sustentar os mais frágeis. Ou seja, a instituição enquanto função existia claramente, embora o nome moderno ainda não estivesse presente.

Assim, ao longo da história, a regra é constante: a função nasce primeiro; o nome técnico se consolida depois. É desse modo que as instituições humanas se formam, maturam e, séculos mais tarde, recebem a terminologia que hoje utilizamos como se fosse evidente desde o princípio.

Devemos reconhecer essa realidade das instituições para entender perfeitamente quem foi o primeiro papa.

1. Qual a função exercida por um Papa?

A resposta mais imediata costuma ser: o Papa é o líder de toda a Igreja Católica. Essa afirmação é verdadeira, mas não é suficiente. Para compreender corretamente o papado, é preciso olhar para a função que realmente o define.

O Papa não se torna chefe da Igreja por um título genérico ou honorífico, mas porque ele é colocado em uma função muito específica: ser o Bispo de Roma.

Não existe, nem jamais existiu, um papa legítimo que não fosse Bispo de Roma. É essa realidade concreta, histórica e apostólica que confere ao papa sua autoridade sobre toda a Igreja.

Portanto, a função essencial do Papa é ser o Bispo de Roma.

Da mesma forma que vimos no exemplo do hospital, o nome de uma instituição pode variar ao longo dos séculos, pode ganhar outros contornos, sofrer traduções, adaptações ou mudanças de uso. No entanto, a função essencial permanece e permite reconhecer aquela realidade, mesmo quando o nome ainda não existe ou não está plenamente estabelecido.

Assim como identificamos um hospital da Antiguidade não pelo título que recebia, mas pela sua característica fundamental, que é o cuidado dos doentes, também podemos reconhecer a função do papa desde os primeiros tempos, mesmo antes de o nome estar difundido.

Isso é possível porque a função essencial que define o papa é ser o Bispo de Roma. É essa função, exercida desde a era apostólica, que permite identificar claramente a chefia da Igreja, independentemente das variações posteriores de nomenclatura.

2. Evolução do nome

Para entender quem foi o primeiro papa, vamos dar uma um passo.

O título “papa” passou por um longo processo de evolução. A palavra, de origem grega (pappas, “pai”), aparece no século III como expressão de respeito. Em 250, São Cipriano de Cartago chama São Cornélio de Roma de “papa”, mostrando que em algumas regiões o termo já se aplicava ao sucessor de Pedro: “Cornélio, nosso papa, homem santo e bondoso” (Carta 55,8). Ao mesmo tempo, em Alexandria, a tradição atribui ao bispo Heraclas (232–248) o uso do mesmo tratamento, preservado entre seus sucessores.

Nos séculos IV e V, o vocábulo circulava amplamente. Documentos mostram que vários bispos importantes podiam receber o título, enquanto o Bispo de Roma, especialmente Leão Magno (440–461), já afirmava uma autoridade universal própria, mesmo antes de o termo ser exclusivo.

A definição jurídica só veio no século XI. Em 1075, São Gregório VII, no Dictatus papae, estabelece: “Que somente o nome do papa seja mencionado nas igrejas” (§ X) e “Que esse nome é único no mundo” (§ XI). A partir daí, o título passa a designar exclusivamente o Bispo de Roma.

Assim, a história é clara:
– a função (ser Bispo de Roma e chefe da Igreja) existe desde Pedro, nos anos 30–33 d.C.;
– o nome “papa” só se torna exclusivo séculos depois.

A continuidade, porém, é evidente: a função permaneceu idêntica; apenas o nome ganhou precisão histórica.

São Pedro foi o primeiro Papa

Uma leitura atenta dos Evangelhos torna evidente que Nosso Senhor Jesus Cristo conferiu ao apóstolo São Pedro uma autoridade distinta e superior entre os Doze. No Evangelho de São Mateus, o Salvador dirige-se diretamente a ele quando declara: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, e, em seguida, lhe entrega “as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16,18-19), símbolos claros de governo e primazia.

Do mesmo modo, após a Ressurreição, no Evangelho de São João (21,15-17), Cristo o interpela três vezes e lhe confia pessoalmente a missão de apascentar o seu rebanho, reafirmando sua função pastoral e seu papel de sustentáculo visível da Igreja.

Em todas essas passagens, Jesus fala a Pedro de maneira singular, sem estender aquele mandato específico aos demais apóstolos. É nesse gesto deliberado de Cristo que se encontra o fundamento da autoridade do papa, sucessor legítimo de São Pedro. Ainda que Cristo não o tenha chamado de “papa”, trata-se da autoridade conferido, do chefe de todos os cristãos.

Por que uma pessoa com formação protestante não consegue entender episódios tão claros? Porque está focado em uma hermenêutica focada em negar o fato, sem prestar atenção para o sentido explícito das palavras de Nosso Senhor. Afinal, reconhecer isso, poderia abalar a própria validade da sua concepção religiosa.

O Bispo de Roma é a chave da resposta à perguntar: quem foi o primeiro Papa

Para isso, é indispensável articular a autoridade que Jesus Cristo conferiu a São Pedro com o desenvolvimento histórico posterior. Quem se prende estritamente à lógica da Sola Scriptura — ou seja, à ideia de que nada possui valor se não estiver explicitamente registrado nas Escrituras, não conseguirá jamais perceber essa continuidade viva da missão petrina ao longo dos séculos.

Como demonstramos em nosso artigo sobre São Pedro, aliás o mais completo e documentado disponível na internet, o apóstolo desempenhou inúmeras missões em diversos lugares. Foi ele quem fundou a primeira Igreja em Antioquia e, posteriormente, seguiu para Roma, onde fundou a Igreja na cidade, assumiu a direção da comunidade cristã e coroou seu ministério com o martírio.

Autores protestantes utilizaram-se de diversos subterfúgios para negar que São Pedro esteve em Roma, ou que foi martirizado nessa cidade. Porém, as provas documentais e arqueológicas são fartas e inegáveis.

A autoridade da Igreja de Roma

No início do século II, já havia comunidades cristãs espalhadas por toda a parte, cada uma conduzida por seus bispos, instituídos direta ou indiretamente pelos próprios apóstolos. Contudo, entre todas elas, é Roma que se destaca como o centro de referência para a inteira cristandade. Mesmo as Igrejas mais antigas reconhecem sua primazia e lhe prestam respeito singular.

Por volta do ano 107, Santo Inácio de Antioquia, segundo bispo daquela antiquíssima Igreja fundada pelo próprio apóstolo Pedro, e ele mesmo contado entre os discípulos diretos dos Apóstolos, dirige-se aos fiéis de Roma com estas palavras:

Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que recebeu a misericórdia, por meio da magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho único; à Igreja amada e iluminada pela bondade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo fé e amor dela por Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai; eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai. Àqueles que física e espiritualmente estão unidos a todos os seus mandamentos, inabalavelmente repletos da graça de Deus, purificados de toda coloração estranha, eu lhes desejo alegria pura em Jesus Cristo, nosso Deus. (Carta aos Romanos, Saudação Inicial).

O testemunho de um bispo tão antigo, pertencente ao círculo dos Padres Apostólicos e revestido de tamanha autoridade como Santo Inácio de Antioquia, dispensa comentários.

Podemos ainda mencionar Santo Irineu de Lyon (c. 130–202), bispo daquela Igreja e discípulo de São Policarpo — que, por sua vez, fora discípulo do apóstolo São João — o qual afirma de modo claro:

deve necessariamente estar de acordo com ela [com a Igreja de Roma], por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos. (Contra as Heresias, III,3,2)

Além disso, abundam os relatos de bispos de diversas comunidades que iam a Roma para se encontrar com o seu Bispo, reconhecendo espontaneamente sua posição de primazia.

Do mesmo modo, não faltam documentos que evidenciam o exercício direto, concreto e incontestável dessa autoridade. Entre esses testemunhos destaca-se São Clemente I, que governou a Igreja de Roma entre os anos 92 e 99 e cuja Primeira Carta aos Coríntios é um dos mais antigos exemplos da intervenção romana na vida de outra Igreja, exercida com clareza, firmeza e naturalidade apostólica.

A Sucessão Apostólica revela quem foi o primeiro Papa

Entre todos os testemunhos da Patrística do século II, nenhum é tão direto, sólido e historicamente precioso quanto o de Santo Irineu de Lyon (c. 130–202). Irineu representa uma ponte viva entre a geração apostólica e a Igreja do final do século II. E é precisamente ele quem fornece o mais antigo e completo catálogo da sucessão dos bispos de Roma, demonstrando que a fé verdadeira se conserva através da linha ininterrupta que começa em São Pedro e continua nos seus sucessores. Vamos analisar suas citações em sua obra Contra as Heresias, livro III,

Os Apóstolos transmitem o episcopado a Lino

Santo Irineu afirma sem hesitar:

“Os bem-aventurados apóstolos, tendo fundado e edificado a Igreja, transmitiram o governo episcopal a Lino, o mesmo Lino que Paulo recorda em sua carta a Timóteo.” (Contra as Heresias III,3)

Temos aqui a declaração explícita de que Pedro e Paulo, fundadores da Igreja Romana, transmitiram o governo a um sucessor, São Lino. Não se trata de mera coordenação pastoral, mas de transmissão de autoridade episcopal, conceito que Irineu usa de forma estritamente técnica.

De Lino a Anacleto e de Anacleto a Clemente

Irineu continua:

“Lino teve como sucessor Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar após os apóstolos, coube o episcopado a Clemente.”

A menção a São Clemente é particularmente significativa. Irineu ressalta que:

“Clemente vira os próprios apóstolos, convivera com eles, e ainda guardava nos ouvidos a pregação deles e diante dos olhos a tradição.”

Ou seja, o terceiro sucessor de São Pedro não apenas recebeu o episcopado, mas conhecera pessoalmente os apóstolos, confirmando a continuidade viva da tradição.

A lista completa da sucessão até Eleutério

Irineu apresentando a sucessão contínua dos bispos de Roma:

  • São Pedro e São Paulo (mas, o apóstolo dos gentios não foi Bispo de Roma)
  • São Lino
  • São Anacleto
  • São Clemente
  • São Evaristo
  • Alexandre
  • Sisto I
  • Telésforo (mártir)
  • Higino
  • Pio
  • Aniceto
  • Sotero
  • Eleutério (o papa reinante quando Irineu escreve)

E conclui:

“Com esta ordem e sucessão chegou até nós, na Igreja, a tradição apostólica e a pregação da verdade. Esta é a demonstração mais plena de que é uma e a mesma fé vivificante que, fielmente, foi conservada e transmitida desde os apóstolos até agora.”

Em outras palavras, a fidelidade doutrinal da Igreja se comprova pela linha ininterrupta dos bispos de Roma, transmitida desde Pedro e Paulo.

O contraste entre a sucessão da Igreja e a desordem dos hereges

Irineu, ao longo do mesmo capítulo, contrasta a sucessão apostólica com a instabilidade das seitas:

“Entre os hereges nunca houve agrupamento nem ensinamento devidamente instituído.”

A sucessão episcopal romana é, portanto, argumento contra as heresias, particularmente ele pensava na heresia do gnosticismo e, ao mesmo tempo, prova interna da autenticidade da fé católica.

A regra de fé: recorrer às Igrejas mais antigas

Irineu conclui com um princípio que desmonta, de antemão, toda forma moderna de doutrina sem continuidade histórica (inclusive o protestantismo):

“Se surgisse alguma controvérsia, não se deveria recorrer às Igrejas mais antigas, onde viveram os apóstolos, para saber delas o que é certo?”

E acrescenta que, mesmo sem as Escrituras, os cristãos poderiam seguir a tradição apostólica transmitida pelos bispos:

“Se os apóstolos não nos tivessem deixado as Escrituras, dever-se-ia seguir a tradição que transmitiram àqueles a quem confiavam as Igrejas.”

Ou seja: a própria estrutura da fé cristã se fundamenta na transmissão viva, não na Bíblia isolada.

Resposta final a pergunta: Quem foi o primeiro papa?

A resposta às perguntas “quem foi o primeiro papa?” ou “quando surgiu o primeiro papa?“, coincide exatamente com a pergunta decisiva: “quem foi o primeiro Bispo de Roma?”.

Como demonstramos, o termo papa é apenas uma designação que amadureceu ao longo dos séculos, mas a realidade que ele expressa: presidir a Igreja, guardar integralmente o ensinamento dos Apóstolos e governar a comunhão universal a partir de Roma, existe desde o próprio início. Não se trata de uma criação tardia, nem de um acréscimo extrabíblico, mas da continuidade histórica e orgânica da missão confiada por Cristo a Pedro.

E, nesse sentido, a conclusão é simples, direta e documentalmente comprovada: São Pedro, apóstolo do Senhor, foi o primeiro papa, porque foi ele o primeiro Bispo de Roma, portador da autoridade singular conferida pelo próprio Cristo, e cuja missão foi transmitida ininterruptamente aos seus sucessores na Sé Romana. Assim nasceu o papado: não como invenção humana, mas como herança apostólica, viva, visível e continuamente reconhecida desde o século